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Uma leprosa envergonhou-me

«Fontilles» de Joseaperez - Trabajo propio. Disponible bajo la licencia GFDL vía Wikimedia Commons - http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Fontilles.JPG#mediaviewer/File:Fontilles.JPG

«Era de tardinha na leprosaria de Fontilles, Espanha. Depois de atender os meus leprosos, saí da enfermaria para espairecer um pouco. E rezar o terço. O meu caminho passava diante da capela. Entrei e ajoelhei-me num dos bancos.

Na penumbra do santuário percebi que lá na frente junto ao presbitério havia alguma coisa, alguma figura que se movia pouco.  Os contornos foram-se definindo e, finalmente, não havia dúvida: era uma mulher ajoelhada e com os braços em cruz.

Aquela cena mexeu comigo, me chamou a atenção e fiquei a olhar aquele espetáculo, sobre o qual todo o céu devia estar debruçado. Os dois braços pareciam terminar em mãos fechadas.

Observando melhor percebi que eram mãos sem dedos! Eram mãos leprosas. E estavam em cruz! Como se a lepra não fosse já uma cruz e a pobre mulher não estivesse já crucificada. De vez em quando, os braços caíam para um breve descanso; depois subiam de novo…

A mulher estava absorta em oração diante do crucificado, alheia ao que se passava em torno de si.

Lembrei-me aí de Moisés no alto do monte a rezar. Só que o velho patriarca tinha dois homens a segurar-lhe os braços, e aquela mulher estava só, crucificada na sua lepra.

Senti uma vontade enorme de trazer o mundo inteiro para dentro daquele pequeno templo. Especialmente o mundo elegante e vazio, que vende a alma ao conforto e à preocupação com o corpo.

Depois da comoção, comecei a sentir vergonha. Vergonha por mim mesmo e pelo mundo, pelos homens e mulheres do meu tempo. Vergonha por ver que nós, pecadores, não fazemos a penitência de que precisamos…»

                                                                                    

                                                                                       Pe. Héber de Lima, S. J.

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Em meio a guerra, nasce a Reconciliação

   19 de Dezembro de 2014

    Estamos acostumados a participar das comemorações de Natal junto a nossa família, em casa, ou mesmo no colégio, entre amigos, conhecidos; enfim, sempre com a mesa repleta de doces e pratos deliciosos. Temos junto a nós a famosa Árvore de Natal, toda enfeitada com bolinhas coloridas, presentes e os cânticos natalinos que nos prepara para o Nascimento do Menino Jesus. Mas nem sempre as coisas são como nós queremos.

   Acompanhemos, então, uma impressionante história transcorrida no século passado, onde o próprio Salvador do mundo nasceu nos corações dos mais irreconciliáveis inimigos.

24 de dezembro de 1914. Primeira Guerra Mundial.

    No “front”, a batalha é intensa e entra noite adentro. Bombas estrondosas e destruidoras, tiros ensurdecedores e constantes, brados de guerra… Inesperadamente, as fileiras alemãs cessam de atirar. Surpresos os franceses fazem o mesmo. O silêncio cai sobre as trincheiras e os suaves flocos de neve vão caindo lentamente sobre os exaustos exér­citos.

            De repente, surgem tochas no campo alemão. Os soldados que as levam caminham em passo lento. O fogo dança lançando reflexos sobre a neve. Indecisos e perplexos, os franceses deixam o inimigo aproximar-se. Já estão a poucos passos… Mas nada há que recear. Num relance, os franceses entendem tudo: as alemãs cantam “Noite Feliz”; é Natal!

*    *    *

            Reunidos sob o bosque de pinheiros, aqueles homens que instantes atrás haviam dado provas de bravura recordam agora seus antigos natais do tempo de menino. Alguns lembram São Nicolau, o legendário bispo que enchia a imaginação das crianças…

            Alguns soldados alemãs evocam suas aldeiazinhas montanhosas, cobertas de neve. No dia 6 de dezembro, as famílias se reuniam a noite. Era dia de são Nicolau, que prenunciava as alegrias natalinas. Bolos, doces, frutas perfumadas cobriam a mesa. grandes candelabros iluminavam a sala a luz de velas. Ao Lado do presépio, perto da lareira, brilhava uma linda arvore de natal. o ambiente era  de recolhimento , de alegria séria e discreta, mas profunda. Fora, a neve caía lentamente, em flocos.

            Em certo momento, o rosto das crianças se iluminava. Ouviam bimbalhar ao longe os sininhos, com o tropel de animais em marcha. Corriam à janela, encostando o narizinho na vidraça. Na curva do caminho, surgia o trenó dourado, puxado por quatro renas de chifres longos, com seus galhos. Sentado pomposamente, vinha o bispo de barbas brancas: era São Nicolau!

            Paramentado, ele trazia na mão direita um báculo de ouro lavrado; na esquerda, um grande livro, encadernado em fino couro, com bordaduras douradas e pedras preciosas. Seu criado conduzia o trenó, tendo ao lado um saco repleto até os bordos e um grande bordão.

            Chegando à casa, São Nicolau mandava parar o trenó. O criado tomava o saco e o bordão, enquanto o dono da casa ia abrir a porta cheio de alegria, com respeito e veneração. A alta estatura do Prelado, sua longa barba, a mitra e o báculo, tudo isso lhe conferia um ar de solenidade que se misturava a afabilidade da fisionomia e a doçura do olhar. Ele sorria para as crianças e saudava os da casa. Erguia depois solenemente a mão abençoando a todos com o Sinal da Cruz.

            O Ancião dirigia-se depois às crianças, com ternura. A uma pedia que cantasse uma canção de natal. A outra, que recitasse uma poesia. A uma terceira que rezasse uma oração.

            E as crianças, inocentes e maravilhadas, piamente acreditavam que aquele São Nicolau e seus criados haviam descido do céu…

            O respeitável visitante abria então o grande “livro de ouro”, onde estava registrado o comportamento das crianças durante o ano. Após consultá-lo, o Bispo chamava uma por uma, dando-lhes bolos, doces, bombons e frutas como presente. Ou melhor, isto era para as bem-comportadas… a outras, ele sentava-as no joelho e, em tom afável, mas sério, repreendia o mau comportamento. E fazia prometerem emendar-se. Caso contrário… no próximo ano mandaria o criado aplicar-lhes o bordão! Àquelas especialmente insubordinadas ameaçava levá-las no grande saco… O efeito era altamente salutar.

            Assim ia são Nicolau de casa em casa, dando bons conselhos, presentes e também reprimentas paternais. Em alguns lugares, apenas deixava presentes nos sapatos das crianças, colocados do lado de fora das janelas. E a ninguém o bom ancião esquecia!

*    *    *

        Depois destas recordações, os soldados franceses e alemães viam a noite caminhar para o seu fim. Comovidos, despediram-se, e o mesmo cortejo se formou, com os alemães partindo ao som da “Stille Nacht” – “Noite Feliz”. No campo de batalha, restavam as marcas de seus passos sobre a neve, e aos poucos o som daquela maravilhosa canção desaparecia, dando lugar ao profundo silêncio da madrugada.

 *    *    *

    Caro leitor, estamos nos aproximando do Natal! Será que não temos também nós alguma rivalidade, briguinha ou queixa contra o próximo? Eis agora uma grande oportunidade de nos reconciliarmos com ele e juntos aguardamos a vinda do Menino Jesus que novamente nascerá nos corações de todos os homens de boa vontade.

Por Caio V.  In: Agência Boa Imprensa – ABIM – 22/81

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Três ducados…

         15 de setembro de 2014

    Era uma vez, um homem que estava condenado à morte. Que crime havia ele cometido para tal pena? Será ele um assassino? Não sabemos.

            Ia ele sendo conduzido irresistivelmente à forca, erguida no centro da cidade de Toulouse, na França, a vista de todos os que ali passavam.   Acompanhavam-no os juízes e o carrasco com um olhar imperdoável. Uma grande multidão também o seguia atraída pela curiosidade que esse gênero de acontecimento sempre desperta.

            Ora, exatamente nessa hora, passava por Toulouse o Rei com a bondosa Rainha, que ele acabara de desposar na Espanha. Chegando diante da tremenda forca, qual não foi o espanto da Rainha ao ver o infeliz condenado, já com a corda em torno do pescoço, dando o último olhar para essa vida.  A Rainha não pôde conter um forte e decisivo grito e escondeu o rosto entre as mãos.

            Então, neste trágico momento, o Rei deteve-se e fez um sinal ao carrasco para que esperasse. E voltando-se para os juízes, disse:

            –Senhores magistrados, a Rainha vos pede, como sinal de boas vindas, que seja de vosso agrado conceder a este homem o perdão. – Esta intervenção do Rei foi recebida com grande alegria por uns; entretanto, para outros foi uma surpresa.

            Mas os juízes responderam:

            – Majestade, este homem cometeu um grande e terrível crime para o qual não há perdão; e, ainda que nosso desejo seja agradar à senhora nossa Rainha, estamos sujeitos a lei que exige ser ele enforcado imediatamente.

            Você, caro leitor, deve estar se perguntando: Mas, por acaso, existe uma falta que não possa ser perdoada…?

            Não obstante, essa foi exatamente a mesma pergunta que fez a Rainha. E um dos vários conselheiros do Rei respondeu:

            – Não, certamente. E lembrou que, segundo o costume do país, qualquer que seja o condenado e por pior que fosse o seu crime, poderia ser resgatado pela soma de 1000 ducados.

            – É verdade, mas como este pobre coitado conseguirá tal quantia?  — replicaram os magistrados.

            Sem hesitar, o Rei abriu a bolsa e de lá tirou 800 ducados. Quanto à Rainha, vasculhou a sua e não encontrou senão 50 ducados. Disse ela:

            – Senhores, não é bastante para este pobre homem a soma de 850 ducados?

            – A lei exige 1000 ducados. – repetiram os incrédulos magistrados e inflexíveis.

            Então, todos os homens do séquito real reviraram suas respectivas bolsas, à procura de mais moedas, entregando tudo aos juízes. Estes fizeram a contagem e anunciaram:

            – São 997 ducados, ainda faltam 3!

            – Por causa de apenas 3 ducados este homem será então enforcado!? — exclamou a Rainha perplexa.

            – Não se trata de uma exigência nossa, mas é a lei! Ninguém pode alterar a lei!

            E fizeram sinal ao carrasco, que se aproximou com a cabeça coberta por uma alta touca negra, preparando-se para o trágico ato final. De novo interveio a bondosa Rainha:

            – Parem! Primeiro, revistai este pobre miserável. Talvez ele tenha consigo 3 ducados.

            Com ceticismo, o carrasco revistou o condenado e encontrou num de seus bolsos 3 ducados. Completou-se assim, a soma necessária. O criminoso foi perdoado e acolhido amavelmente pelo Rei e pela Rainha.

            Que lição podemos tirar daqui caro leitor? Quem é o homem que, na iminência de ser enforcado, foi salvo pela bondade do Rei, pela intercessão da Rainha e ajuda dos cavaleiros do séquito real?

            Este homem bem pode ser cada um de nós! É você que está lendo este artigo. No dia do Juízo, o que nos salvará será, sem dúvida, a misericórdia de Deus, a intercessão da Virgem Maria e os méritos dos Santos. Mas, tudo isto de nada valerá se não levarmos conosco pelo menos 3 ducados de boa vontade!

Por Victor Henrique Martins

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Nossa Senhora do Rosário, o auxílio certo nas horas incertas

07 de Outubro de 2013

Memória de Nossa Senhora do Rosário

          A Santa Igreja, sendo guiada pelo Espírito Santo durante seus dois milênios de história, produziu diversos e abundantes frutos de devoção e manifestação de amor a Deus. Dentre esses frutos, destacaremos um dos mais belos e conhecidos na piedade católica, o Rosário de Nossa Senhora.

            Onde e quando surgiu essa afamada devoção?

            Corria o ano de 1214 e se alastrava na França uma terrível heresia sustentada pelos albigenses, que estava devastando a fé naquela região. Para combater essa chaga na Igreja de Jesus Cristo, um santo homem pregava a doutrina verdadeira e refutava os erros albigenses. Era o ardoroso São Domingos. Entretanto, vendo que seus esforços eram praticamente insuficientes, o santo se retira para uma floresta, onde passa três dias na mais profunda oração e penitência. Quando já estava quase sem forças, lhe aparece Nossa Senhora e entrega-lhe, em suas mãos, a arma com que iria vencer essa disputa, o Rosário.

            São Domingos dirige-se à catedral onde, subitamente, a natureza manifesta um terrível espetáculo de trovões, tremores e até o sol se velou. Após essa amostra do desgosto de Deus, devido à heresia daquele povo, São Domingos faz uma entusiasmada pregação sobre a excelência do Rosário, convertendo a grande parte dos fiéis que o ouviam.¹ Mais tarde, em 1571, a esquadra cristã vendo-se em grande perigo diante de uma arriscada batalha no golfo de Lepanto, recomenda-se ao auxílio da Santíssima Virgem através da recitação do Rosário, obtendo a vitória depois de um difícil combate. E no ano seguinte o Papa São Pio V institui esta comemoração em ação de graças pela vitória.

            Diante de tantos prodígios, poderia alguém hesitar em inserir esta devoção na sua vida? Diante de tantos problemas que nos rodeiam, poderíamos nós não recorrermos ao auxílio da Mãe daquele que tudo pode? Comecemos, então, a partir de hoje a seguir o conselho que Ela mesma deu em Fátima: “Se queres ter paz, reze o terço todos os dias”.

¹Cf. MONTFORT, São Luís Maria Grignion de. O Segredo admirável do Santíssimo Rosário. BAC, Madri, 1954.

Por Rodrigo Siqueira