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Festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão – II

Parte 2

A polêmica marca o início da vida pública de Jesus

Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém.

   A magnífica cena da expulsão dos vendilhões do Templo, descrita por São João, ocorreu durante a primeira Páscoa da vida pública de Nosso Senhor Jesus Cristo.

   Cumpre ressaltar que, segundo consta nos outros Evangelhos, Jesus tomou semelhante atitude nesse recinto sagrado ao menos duas vezes. Uma foi no início de sua pregação, narrada neste trecho, e outra alguns dias antes da paixão. Em ambas as situações encontramos Nosso Senhor manifestando um aspecto de sua divina personalidade que desconheceríamos se não fosse a circunstância referida pelo texto sagrado: a cólera do próprio Deus, a indignação do Onipotente, vista através dos véus da natureza humana.

No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados.


   Por ocasião da Páscoa, reuniam-se em Jerusalém judeus vindos de toda a parte para cumprir o preceito de visitar o Templo. A Lei prescrevia o oferecimento de vítimas em holocausto — bois, cordeiros, pombos e rolas —, mas, como é compreensível, quase ninguém trazia de longe os animais para esse fim. Os peregrinos também deviam pagar o imposto anual do Templo em moeda judaica. Como na época havia israelitas dispersos por inúmeras nações, cada qual com a moeda própria, ao chegarem de viagem eram obrigados a procurar negociantes que efetuassem o câmbio.6 As moedas estrangeiras, sobretudo a romana, circulavam livremente pela Judeia.

   As necessidades do culto acima descritas deram margem ao estabelecimento de um verdadeiro comércio de animais e de uma praça de cambistas no átrio do Templo, chamado Pátio dos Gentios, onde o acesso aos estrangeiros ainda era permitido. Ali a movimentação se assemelhava à de um mercado ou de uma feira cheia de vida dos dias de hoje, acrescida de manifestações do temperamento oriental, muito comunicativo e afeito a cânticos e discussões. A soma de todos esses elementos resultava num tumulto inadmissível naquele recinto incomparavelmente sagrado, a ponto de a simples lembrança desses fatos nos dar a impressão de um Templo profanado.  

Mãos que abençoam também castigam

Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas.

   Como devemos entender o fato de Jesus, a substância da própria Bondade, dar vazão ali à sua divina cólera?

  Aquelas mãos feitas para abençoar, em determinado momento decidem dar uma bênção especial, com um hissope peculiar: um látego. Jesus, conhecedor de todos os segredos da natureza, terá escolhido fibras adequadas para tecer esse instrumento com maestria única. Não imaginemos que Ele acariciasse com suavidade e doçura as costas dos que lá se encontravam. Pelo contrário, usa de violência pondo-os para fora e derrubando as mesas dos cambistas, de maneira a fazer rolar as moedas pelo chão. Segundo se calcula, eram nada menos que duas mil pessoas transitando nessa área, e Cristo as expulsou sozinho, valendo-Se apenas de um chicote. Isso nos ajuda a medir não apenas a intensidade da cólera e a força de seu braço, mas, sobretudo, o ímpeto vindo do fundo de sua Alma, inteiramente aliado à ira divina.

E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”

   De fato, essa situação criada com o passar dos anos proporcionava renda ilícita não só aos vendedores e cambistas, mas em primeiro lugar aos membros do Sinédrio, de maneira particular à família sacerdotal de Anás. Haviam eles instituído um sistema de controle desse comércio e um monopólio sobre todos os trâmites ali efetuados. Livres de qualquer concorrência, aproveitavam-se das exigências legais para impor valores inflados, configurar roubos e extorquir do povo as mais variadas quantias

A verdadeira origem da indignação do Divino Mestre

Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá”.

   Em nossos dias, muitos manifestam dificuldade em compreender a conduta do Salvador nesse episódio, por não vislumbrarem ali os efeitos de sua misericórdia. Lembremo-nos de que Jesus assim procedeu para benefício das almas, com enorme empenho em perdoar, corrigir e conceder a salvação. É com o intuito de favorecer todos, movido pelo mesmo zelo que manifesta pela casa de seu Pai, que vê maculada por um tumulto comercial e por interesses alheios à Religião.

Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?”

   Se realmente esperavam um sinal, deveriam reconhecer que o fato de um só homem afugentar milhares de pessoas era a demonstração claríssima de estar agindo por força sobre-humana. Numa época em que não existiam as armas de fogo, Ele nem sequer Se serviu da espada ou da lança, mas teceu um chicote de cordas, de si insuficiente para amedrontar todos os presentes. Em tese, bastaria dominar o seu braço para impedi-Lo de continuar e a vitória dos negociantes estaria assegurada. Eles poderiam tê-Lo prendido, interrogado e levado à morte no mesmo dia.

   É evidente que não o tentaram fazer porque estavam tomados de pavor. Na verdade, ninguém teve coragem de se levantar contra Ele! Que outro sinal buscavam? Essa falta de reação dos maus, paralisados pelo temor imposto por Nosso Senhor, era demonstração de um tão extraordinário poder, que bem poderia afirmar Jesus: “O sinal que vós quereis é o medo que tendes de Mim!”. Todavia, Ele vai atendê-los, concedendo por misericórdia aquilo que pedem. 

Um Templo superior ao Templo

Ele respondeu: “Destruí este Templo, e em três dias o levantarei”. Os judeus disseram: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste Santuário e Tu o levantarás em três dias?”. 21 Mas Jesus estava falando do Templo do seu Corpo. Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que  Ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra d’Ele.

   A partir do momento em que Deus, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Se encarna e assume a nossa natureza, seu Corpo passa a ser o Templo perfeitíssimo de Deus — não apenas do Filho, mas também do Pai e do Espírito Santo — estabelecido na face da Terra como pedra angular, peça principal e Cabeça da Santa Igreja. Esse Templo, encontramo-Lo ainda hoje de forma invisível, mas real, na Eucaristia. E Deus deseja que se construam templos para abrigar o Templo verdadeiro da Santíssima Trindade, o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, oculto sob as Sagradas Espécies.

III – Nós também somos templos de Deus

Nosso templo deve ser sempre embelezado

   Na medida em que somos íntegros, enriquecemos e aprimoramos nosso templo com vitrais, pinturas, símbolos, cores e belos mármores, e conforme crescemos em piedade eucarística, entregamo-nos a Nosso Senhor, fugimos do pecado e combatemos os nossos defeitos e caprichos, mais as suas paredes se tornam abençoadas e somos penetrados pela presença da Santíssima Trindade, que passa a falar com mais frequência no interior da alma.

Não permitamos a profanação desse templo

   Não permitamos de maneira alguma o estabelecimento de um comércio ilegítimo em nossa alma, pior que o câmbio de moedas ou a venda de animais: a admiração pelas coisas do mundo que nos distanciam de Deus. Em quantas ocasiões da vida, especialmente neste tempo em que o pecado campeia por toda a Terra, corremos o risco de transformar nosso templo num “covil de ladrões”! Tomemos muito cuidado nessas circunstâncias para não trocarmos a “moeda” da eternidade pela do mundo.

Senhor, purificai este templo!

   Se em alguma ocasião nosso templo foi profanado, hoje é o dia de pedir: “Senhor, vinde com vosso chicote e expulsai os vendilhões que estão dentro de mim!”. Este é o dia da expulsão dos vendilhões do templo de nossa alma, caso tenhamos permitido que nela se fizesse comércio, transformando-a num “covil de ladrões”. Aproveitemos esta festa para assimilar com ardor o ideal de integridade e sermos verdadeiramente honestos, abandonando qualquer má inclinação que possa macular, ainda que seja num ponto mínimo, o vitral de nosso templo. Façamos desde já o propósito de tratar nosso corpo com todo respeito e veneração, e de nunca usá-lo para ofender a Deus. É preferível morrer que pecar, pois ao manter-se livre de qualquer comércio, o templo de cada um ressuscitará com a glória extraordinária que lhe é prometida  por Aquele que recebeu do Pai o poder de fazer justiça.

Fontes consultadas:  DIAS, João S. Clá, O Inédito sobre os Evangelhos Vol VII, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano, 2013

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Festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão – I

Parte 1

I – A cabeça e mãe de todas as igrejas

   A Igreja celebra com esplendor a festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão, que ostenta o título honorífico de “Omnium urbis et orbis ecclesiarum mater et caput”, ou seja, “Mãe e cabeça de todas as igrejas da cidade [de Roma] e do mundo”. É ela a Catedral do Papa, ao contrário do que se costuma pensar devido ao papel hoje desempenhado pela Basílica de São Pedro, a qual, na verdade, é apenas uma das quatro basílicas papais da Cidade Eterna.

   Até o exílio dos Papas em Avignon, no século XIV, viviam eles no Palácio de Latrão, antiga propriedade da família Laterano, nome pelo qual ficou conhecido. O cônsul romano Pláucio Laterano, por suspeita de conspiração, foi morto pelo infame Nero que lhe confiscou os bens, dentre os quais esse edifício, na mesma época em que movia a perseguição aos cristãos.1 Não imaginava o tirano que, anos mais tarde, tudo aquilo seria doado à Igreja pelo Imperador Constantino, e tornar-se-ia residência dos sucessores de Pedro e primeira Basílica da Cristandade. O Papa São Silvestre dedicou-a no ano 324.

   Nesta Basílica encontramos não só vestígios de variados estilos artísticos, graças às obras de embelezamento e ampliação realizadas ao longo dos séculos, mas também numerosas e valiosíssimas relíquias. Dentre as principais contam-se a mesa onde foi celebrada a Santa Ceia (cf. Mt 26, 20-28; Mc 14, 18-24; Lc 22, 14-17), parte do tecido purpúreo com que os soldados revestiram o Divino Redentor na Paixão (cf. Mc 15, 17; Jo 19, 2), as cabeças de São Pedro e de São Paulo, e a taça na qual São João Evangelista, segundo uma antiga tradição, foi obrigado a tomar um veneno que, por milagre, não lhe fez mal. 

Nascida sob o signo da perseguição

   Para melhor compreendermos a importância desta data, lembremo-nos de que a Santa Igreja Católica nasceu sob o signo  da perseguição, em circunstâncias por vezes tão violentas que obrigavam os primeiros cristãos a se refugiar nas catacumbas — os cemitérios cristãos — para praticar o culto. Era costume na Roma Antiga escavar extensas galerias subterrâneas, verdadeiros labirintos, nas quais sepultavam os mortos. Transitar por elas era perigoso, pois quem o fizesse podia se perder com facilidade, sem ter como retornar. Nas épocas de perseguição, os irmãos que nos precederam com o sinal da Fé precisavam embrenhar-se nessas profundezas — naquele tempo sem dispor de luz elétrica —, com grande risco de serem denunciados, presos e supliciados. No Coliseu e no Circo Máximo grande número de cristãos manifestaram sua adesão à Fé com a própria vida, ao serem mortos pelas feras na arena diante do público ou em meio a terríveis tormentos.  

   A liberdade de culto outorgada por Constantino com a promulgação do Edito de Milão, em 313, por influência de sua mãe Santa Helena, e o consequente pulular de incontáveis igrejas por todo o império — dentre as quais a Basílica de Latrão ocupa um posto proeminente — representaram para os fiéis indescritível alívio e alegria.

   Expressivo é o testemunho de Eusébio de Cesareia ao retratar o exultar do povo cristão com o advento dessa nova era da História da Igreja: “um dia esplendoroso e radiante, sem nuvem alguma que lhe fizesse sombra, ia iluminando com seus raios de luz celestial as igrejas de Cristo pelo universo inteiro, […] transbordávamos de indizível gozo, e para todos florescia uma alegria divina em todos os lugares que pouco antes se encontravam em ruínas pela impiedade dos tiranos, como se revivessem, depois de uma longa e mortífera devastação. E os templos surgiam de novo desde os fundamentos até uma altura imprevista, e recebiam uma beleza muito superior à dos que anteriormente haviam sido destruídos”

   Por isso a festa da Dedicação da Basílica do Latrão foi instituída em Roma, expandindo-se mais tarde, e hoje consideramos com júbilo esse templo grandioso, que até nossos dias impressiona por seu esplendor.

 

Fontes consultadas:  DIAS, João S. Clá, O Inédito sobre os Evangelhos Vol VII, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano, 2013

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Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

I – Após a morte, uma dívida pendente

   A Santa Igreja, em sua sabedoria e inerrância divinas, inseriu no calendário litúrgico a comemoração de Todos os Fiéis Defuntos no dia seguinte à Solenidade de Todos os Santos — no Brasil adiada para o domingo seguinte por motivos pastorais —, com o intuito de unir os três estados da Igreja, Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual Ele é a Cabeça. Ontem, a Igreja militante — constituída pelos que na Terra, em estado de prova, combatem o bom combate para receber depois o prêmio da glória (cf. II Tim 4, 7-8) — festejava a Igreja triunfante, louvando e glorificando os Santos que já se encontram na eterna bem-aventurança. Hoje volta ela seu olhar para os irmãos que, sendo também justos, ainda estão no Purgatório — a Igreja padecente —, cumprindo as penas temporais devidas por suas faltas.

   Depois da Confissão, uma dívida pendente Não obstante, devemos nos lembrar de que se o Batismo perdoa a dupla pena à qual está sujeito o pecador — a eterna, em consequência da rejeição de Deus, e a temporal, devido à adesão desordenada às criaturas —, a Confissão, ao absolver da primeira, nem sempre livra totalmente da segunda, pois a remissão desta depende da intensidade e da perfeição do arrependimento de cada alma (assim nos ensina São Tomás). Assim, na maior parte dos casos, permanece pendente uma dívida que exige reparação, quer na Terra, por meio da penitência, quer na outra vida, submetendo-se a alma aos rigores do Purgatório.

   No que consiste, então, essa dívida, e como poderá a alma pagá-la? Imaginemos alguém que, andando pela rua num dia de chuva, se vê de repente coberto de lama da cabeça aos pés pela passagem de um veículo em alta velocidade. Por mais que essa pessoa lave o rosto, sabe que, além disso, precisa limpar a roupa, sobretudo se está a caminho de uma festa de casamento, onde jamais poderia aparecer manchada de barro.

A razão da existência do Purgatório

   Da mesma forma, no momento em que a alma se separa do corpo e comparece ao juízo particular, recebe um especial dom para lhe iluminar a memória e a consciência, recordando-lhe todos os detalhes de sua vida moral e espiritual. Percebe ela, então, como na Confissão lhe foram perdoadas as faltas contra Deus, bem como a pena eterna delas decorrente: seu rosto está limpo. Mas sua consciência grita, pois sente-se suja e necessitada de “trocar de roupa”, isto é, de pagar a pena temporal.

   Como obter o perdão da pena temporal e adequar os critérios, a fim de se estar pronto para ver a Deus? Na vida terrena podemos alcançar isto mediante a aquisição dos méritos que nos advêm das boas obras — penitências, orações, atos de misericórdia, etc. — ou pelas indulgências que a Igreja nos concede, pois, “usando de seu poder de administradora da Redenção de Cristo Senhor, […] por sua autoridade abre ao fiel convenientemente disposto o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos”.

   No caso de terem sido desdenhados estes meios, torna-se necessária a existência do Purgatório para, post mortem, “purificar [a alma] das sequelas do pecado” e obter a remissão da pena, como diz São Tomás, pagando durante um período a dívida imposta pela ofensa à consciência e à ordem do universo. “É portanto necessário” — continua o ensinamento da Igreja — “para o que se chama plena remissão e reparação dos pecados não só que, graças a uma sincera conversão, se restabeleça a amizade com Deus e se expie a ofensa feita à sua sabedoria e bondade, mas também que todos os bens, ou pessoais ou comuns à sociedade ou relativos à própria ordem universal, diminuídos ou destruídos pelo pecado, sejam plenamente restaurados”.

O reformatório de nosso egoísmo

   Desejando, pois, que entremos no convívio com Ele sem mancha alguma, puros e perfeitos — porque lá “não entrará nada de profano nem ninguém que pratique abominações e mentiras” (Ap 21, 27) —, Deus criou o Purgatório, à maneira de reformatório do nosso egoísmo, onde este é queimado no fogo e somos reeducados na verdadeira visualização de todas as coisas e no amor à virtude. Concluído este período, nossa alma está santificada e, por isso, pode-se afirmar que todos os que estão no Céu são santos.

Esperança no meio de grandes tormentos

   As almas do Purgatório sofrem terrivelmente, mas com uma grande vantagem sobre nós: a esperança segura do Céu. É esta uma virtude que causa alegria e consolação, porque nos promete uma posse futura. Todavia, nossa esperança nesta vida é duvidosa e incerta, porque estando aqui de passagem podemos em qualquer ocasião vacilar e cometer uma falta grave, arriscando perder a vida eterna se a morte nos colher logo depois. No Purgatório, pelo contrário, essa esperança já é absoluta, pois traz consigo a certeza de ter atingido o termo, isto é, de ter conquistado a salvação.

   O Venerável Estanislau Ghoscoca, dominicano polonês, estava certo dia rezando, quando lhe apareceu uma alma do Purgatório envolta em chamas. Ele perguntou-lhe, então, se aquele fogo era mais ativo e penetrante que o terrestre, e a alma, gemendo, exclamou: “Em comparação com o fogo do Purgatório, o da Terra parece uma rajada de ar leve e refrescante”. Como Estanislau, cheio de coragem, lhe pedisse uma prova, ela respondeu: “É impossível a um mortal suportar tais tormentos; contudo, se quereis uma experiência, estendei a mão”. Ele assim o fez e o defunto deixou cair nela uma gotinha de suor escaldante. No mesmo instante, dando um agudo grito, o religioso caiu desmaiado no chão, num estado semelhante à morte.

As almas do Purgatório desejam essa purificação

   Apesar de tais penas, as almas que se encontram no Purgatório não estão ali acorrentadas, desejando fugir. Pelo contrário, aceitam todos os sofrimentos. E se soubessem da existência de mil Purgatórios, ainda mais ardentes, quereriam neles se lançar, pois, na verdade, o que se lhes afigura mais intolerável é verem-se cobertas de manchas que as afastam de Deus.

II – A Igreja que luta reza pela Igreja que padece

   A Igreja, como Mãe amorosa, escolheu um dia do Ano Litúrgico para a comemoração dos Fiéis Defuntos, no qual concede aos sacerdotes o direito de celebrar três Missas, com “a condição que uma das três seja aplicada a livre escolha, com possibilidade de receber oferta; a segunda Missa, sem nenhuma oferta, seja dedicada a todos os Fiéis Defuntos; a terceira seja celebrada segundo as intenções do Sumo Pontífice”. 

   A Santa Igreja dá ainda aos fiéis o privilégio de obter uma indulgência plenária em favor de uma alma do Purgatório, recitando neste dia — ou nos dias subsequentes, até 8 de novembro — um Pai Nosso e um Credo em alguma igreja ou oratório, ou visitando um cemitério para rezar nessa intenção.

Um “negócio” com as almas do Purgatório

   Esta piedosa prática nos permite fazer amizade com aqueles que, por causa de nossas preces, saem do Purgatório e são admitidos no Céu, onde adquirem um poder de audiência colossal junto a Deus. Decerto, a gratidão deles nos beneficiará. Se nesta Terra somos agradecidos aos nossos benfeitores, quanto mais as almas que entram na glória saberão interceder em favor de quem por elas rezou.

   Nesse sentido, bem cabe aqui a aplicação da parábola do administrador infiel (cf. Lc 16, 1-8). Este homem, ao perceber que perderia o emprego devido à má gestão nos negócios de seu senhor, travou amizade com todos os devedores deste a fim de ser sustentado por eles na hora da amargura e da necessidade, já que, por sua avançada idade, carecia de forças para trabalhar. E, uma vez despedido, foi ele amparado por todos aqueles de quem fraudulentamente aliviara a dívida. Nosso Senhor não elogia o roubo do administrador, mas louva, isto sim, sua esperteza.

   Hoje é, então, o dia da esperteza! Devemos pedir por todos os que se encontram no Purgatório, sobretudo os mais ligados a nós. Este ato de caridade nos renderá bons amigos, que retribuirão em qualidade e quantidade o favor recebido e, por conseguinte, muito nos ajudarão na hora da dificuldade.

Fontes consultadas:  DIAS, João S. Clá, O Inédito sobre os Evangelhos Vol VII, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano, 2013

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Solenidade de Pentecostes

   Como outras tantas festas litúrgicas, Pentecostes nos faz recordar um dos grandes mistérios da fundação da Igreja por Jesus. Encontrava-se ela em estado ainda quase embrionário — alegoricamente, poder-se-ia compará-la a uma menina de tenra idade — reunida em torno da Mãe de Cristo. Ali no Cenáculo, conforme nos descrevem os Atos dos Apóstolos na primeira leitura (At 2, 1-11), passaram-se fenômenos místicos de excelsa magnitude, acompanhados de manifestações sensíveis de ordem natural: ruído como de um vento impetuoso, línguas de fogo, os discípulos exprimindo-se em línguas diversas sem tê-las antes aprendido.

   Enquanto figura exponencial, destaca-se Maria Santíssima, predestinada desde toda a eternidade a ser Mãe de Deus. Dir-se-ia que havia atingido a plenitude máxima de todas as graças e dons; entretanto, em Pentecostes, mais e mais Lhe seria concedido. Assim como fora eleita para o insuperável dom da maternidade divina, cabia-Lhe agora o tornar-Se Mãe do Corpo Místico de Cristo e, tal qual se deu na Encarnação do Verbo, desceu sobre Ela o Espírito Santo, por meio de uma nova e riquíssima efusão de graças, a fim de adorná-La com virtudes e dons próprios e proclamá-La “Mãe da Igreja”.

   Em seguida estão os Apóstolos; constituem eles a primeira escola de arautos do Evangelho. Observavam as condições essenciais para estarem aptos à alta missão que lhes destinara o Divino Mestre, conforme nos relata a Escritura: “Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, Mãe de Jesus, e os irmãos d’Ele” (At 1, 14).

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-Se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”.

   Qual seria o lugar onde estavam reunidos, não se sabe com exatidão. A hipótese mais provável recai sobre o Cenáculo.

   Outro particular interessante. Ele poderia ter preferido saudá-los logo à entrada, no entanto caminhou entre eles e foi colocar-Se bem ao centro. Esse deve ser sempre o posto de Jesus em todas as nossas atividades, preocupações e necessidades.

   Sua saudação também nos chama especialmente a atenção: “A paz esteja convosco”.

   Jesus, desejando-lhes a paz, oferecia-lhes um dos principais frutos desse Amor infinito que é o Espírito Santo.

Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor.

   Por esta atitude do Senhor podemos bem avaliar o quanto o pavor havia penetrado na alma de todos, apesar de ouvirem a voz do Divino Mestre desejando-lhes a paz.

   Por isso tornou-se indispensável mostrar-lhes aquelas mãos que tanto haviam curado cegos, surdos, leprosos e inúmeras outras enfermidades, mãos que talvez eles mesmos tivessem, a seu tempo, osculado.

   Outra nota de bondade consiste no fato de Ele ter velado o esplendor de seu Corpo glorioso, caso contrário a natureza humanados Apóstolos não teria suportado o fulgor da majestade do Homem-Deus ressurrecto.

Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio”.

   Jesus Se dirige aos séculos futuros e, portanto, à própria era na qual vivemos. Também a nós Ele nos repete o mesmo desejo de paz formulado aos Apóstolos naquele momento, em especial à nossa civilização que tem suas raízes em Cristo — Rei, Profeta e Sacerdote —, cuja entrada neste mundo fez-se sob o belo cântico dos Anjos: “na Terra paz” (Lc 2, 14). Não foi outro o dom por Ele oferecido antes de morrer na Cruz, ao despedir-se: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz” (Jo 14, 27). Contudo, a humanidade hoje se suicida em guerras, terrorismos e revoluções. E qual a causa? Não queremos aceitar a paz de Cristo.

   A paz deve ser a condição normal e corrente para o bom relacionamento social, sobretudo na célula mater da sociedade, a família. Eis um dos grandes males de nossos dias: a autoridade paterna se autodestruiu, a sujeição amorosa da mãe se evanesceu e a obediência dos filhos foi carcomida pelo capricho, desrespeito e revolta. Essas enfermidades morais, transpostas para a vida da sociedade, redundam em luta civil, de classes e até mesmo entre os povos.

   Após esse segundo voto de paz, Jesus envia seus discípulos à ação, tornando claro o quanto é necessário jamais se deixar tomar pelo afã dos afazeres, perdendo a serenidade. Um dos elementos essenciais para o apostolado bem sucedido é a paz de alma de quem o faz.

E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo”.

   A descida do Espírito Santo sobre Maria e os Apóstolos se deu depois da subida de Jesus ao Céu e talvez daí decorre o fato de alguns negarem a realidade do grande mistério operado por Ele na ocasião, narrada no versículo em análise. Esse erro, mais explícito no começo do século VI, foi solenemente condenado pela Igreja no V Concílio Ecumênico de Constantinopla, em 552: “Se alguém defende o ímpio Teodoro de Mopsuéstia, que diz […] que depois da Ressurreição, quando o Senhor soprou sobre os seus discípulos, dizendo: ‘Recebei o Espírito Santo’ (Jo 20, 22), não lhes deu o Espírito Santo, mas soprou só a modo de figura […], seja anátema”.

   No Evangelho de João essa doação do Espírito Santo tem em vista a faculdade de perdoar os pecados:

“A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem não os perdoardes eles lhes serão retidos”.

   Que grande dom concedido aos mortais por meio dos sacerdotes: o perdão dos pecados! E que imensa responsabilidade a de um Ministro de Deus! Dele diz São João Crisóstomo: “Se o sacerdote tiver conduzido bem sua própria vida, mas não tiver cuidado com diligência da dos outros, condenar-se-á com os réprobos”.

   Quanto se fala de paz, hoje em dia, e quanto se vive no extremo oposto dela! O interior dos corações se encontra penetrado de tédio, apreensão, medo, desânimo e frustração, quando não de orgulho, sensualidade e falta de pudor. A instituição da família vai se tornando uma peça de antiquário. A ânsia de obter, não importa por que meio, sem levarem conta o direito alheio, vai caracterizando todas as nações dos últimos tempos. Em síntese, não há paz individual, nem familiar, nem no interior das nações.

   Eis porque nossos olhos devem voltar-se à Rainha da Paz a fim de rogar sua poderosa intercessão para que seu Divino Filho nos envie uma nova Pentecostes e seja, assim, renovada a face da Terra, como melhor solução para o grande caos contemporâneo.

 Obra consultada:  DIAS, João S. Clá, O Inédito sobre os Evangelhos Vol I, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano, 2013