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Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos

I – Após a morte, uma dívida pendente

   A Santa Igreja, em sua sabedoria e inerrância divinas, inseriu no calendário litúrgico a comemoração de Todos os Fiéis Defuntos no dia seguinte à Solenidade de Todos os Santos — no Brasil adiada para o domingo seguinte por motivos pastorais —, com o intuito de unir os três estados da Igreja, Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual Ele é a Cabeça. Ontem, a Igreja militante — constituída pelos que na Terra, em estado de prova, combatem o bom combate para receber depois o prêmio da glória (cf. II Tim 4, 7-8) — festejava a Igreja triunfante, louvando e glorificando os Santos que já se encontram na eterna bem-aventurança. Hoje volta ela seu olhar para os irmãos que, sendo também justos, ainda estão no Purgatório — a Igreja padecente —, cumprindo as penas temporais devidas por suas faltas.

   Depois da Confissão, uma dívida pendente Não obstante, devemos nos lembrar de que se o Batismo perdoa a dupla pena à qual está sujeito o pecador — a eterna, em consequência da rejeição de Deus, e a temporal, devido à adesão desordenada às criaturas —, a Confissão, ao absolver da primeira, nem sempre livra totalmente da segunda, pois a remissão desta depende da intensidade e da perfeição do arrependimento de cada alma (assim nos ensina São Tomás). Assim, na maior parte dos casos, permanece pendente uma dívida que exige reparação, quer na Terra, por meio da penitência, quer na outra vida, submetendo-se a alma aos rigores do Purgatório.

   No que consiste, então, essa dívida, e como poderá a alma pagá-la? Imaginemos alguém que, andando pela rua num dia de chuva, se vê de repente coberto de lama da cabeça aos pés pela passagem de um veículo em alta velocidade. Por mais que essa pessoa lave o rosto, sabe que, além disso, precisa limpar a roupa, sobretudo se está a caminho de uma festa de casamento, onde jamais poderia aparecer manchada de barro.

A razão da existência do Purgatório

   Da mesma forma, no momento em que a alma se separa do corpo e comparece ao juízo particular, recebe um especial dom para lhe iluminar a memória e a consciência, recordando-lhe todos os detalhes de sua vida moral e espiritual. Percebe ela, então, como na Confissão lhe foram perdoadas as faltas contra Deus, bem como a pena eterna delas decorrente: seu rosto está limpo. Mas sua consciência grita, pois sente-se suja e necessitada de “trocar de roupa”, isto é, de pagar a pena temporal.

   Como obter o perdão da pena temporal e adequar os critérios, a fim de se estar pronto para ver a Deus? Na vida terrena podemos alcançar isto mediante a aquisição dos méritos que nos advêm das boas obras — penitências, orações, atos de misericórdia, etc. — ou pelas indulgências que a Igreja nos concede, pois, “usando de seu poder de administradora da Redenção de Cristo Senhor, […] por sua autoridade abre ao fiel convenientemente disposto o tesouro das satisfações de Cristo e dos Santos”.

   No caso de terem sido desdenhados estes meios, torna-se necessária a existência do Purgatório para, post mortem, “purificar [a alma] das sequelas do pecado” e obter a remissão da pena, como diz São Tomás, pagando durante um período a dívida imposta pela ofensa à consciência e à ordem do universo. “É portanto necessário” — continua o ensinamento da Igreja — “para o que se chama plena remissão e reparação dos pecados não só que, graças a uma sincera conversão, se restabeleça a amizade com Deus e se expie a ofensa feita à sua sabedoria e bondade, mas também que todos os bens, ou pessoais ou comuns à sociedade ou relativos à própria ordem universal, diminuídos ou destruídos pelo pecado, sejam plenamente restaurados”.

O reformatório de nosso egoísmo

   Desejando, pois, que entremos no convívio com Ele sem mancha alguma, puros e perfeitos — porque lá “não entrará nada de profano nem ninguém que pratique abominações e mentiras” (Ap 21, 27) —, Deus criou o Purgatório, à maneira de reformatório do nosso egoísmo, onde este é queimado no fogo e somos reeducados na verdadeira visualização de todas as coisas e no amor à virtude. Concluído este período, nossa alma está santificada e, por isso, pode-se afirmar que todos os que estão no Céu são santos.

Esperança no meio de grandes tormentos

   As almas do Purgatório sofrem terrivelmente, mas com uma grande vantagem sobre nós: a esperança segura do Céu. É esta uma virtude que causa alegria e consolação, porque nos promete uma posse futura. Todavia, nossa esperança nesta vida é duvidosa e incerta, porque estando aqui de passagem podemos em qualquer ocasião vacilar e cometer uma falta grave, arriscando perder a vida eterna se a morte nos colher logo depois. No Purgatório, pelo contrário, essa esperança já é absoluta, pois traz consigo a certeza de ter atingido o termo, isto é, de ter conquistado a salvação.

   O Venerável Estanislau Ghoscoca, dominicano polonês, estava certo dia rezando, quando lhe apareceu uma alma do Purgatório envolta em chamas. Ele perguntou-lhe, então, se aquele fogo era mais ativo e penetrante que o terrestre, e a alma, gemendo, exclamou: “Em comparação com o fogo do Purgatório, o da Terra parece uma rajada de ar leve e refrescante”. Como Estanislau, cheio de coragem, lhe pedisse uma prova, ela respondeu: “É impossível a um mortal suportar tais tormentos; contudo, se quereis uma experiência, estendei a mão”. Ele assim o fez e o defunto deixou cair nela uma gotinha de suor escaldante. No mesmo instante, dando um agudo grito, o religioso caiu desmaiado no chão, num estado semelhante à morte.

As almas do Purgatório desejam essa purificação

   Apesar de tais penas, as almas que se encontram no Purgatório não estão ali acorrentadas, desejando fugir. Pelo contrário, aceitam todos os sofrimentos. E se soubessem da existência de mil Purgatórios, ainda mais ardentes, quereriam neles se lançar, pois, na verdade, o que se lhes afigura mais intolerável é verem-se cobertas de manchas que as afastam de Deus.

II – A Igreja que luta reza pela Igreja que padece

   A Igreja, como Mãe amorosa, escolheu um dia do Ano Litúrgico para a comemoração dos Fiéis Defuntos, no qual concede aos sacerdotes o direito de celebrar três Missas, com “a condição que uma das três seja aplicada a livre escolha, com possibilidade de receber oferta; a segunda Missa, sem nenhuma oferta, seja dedicada a todos os Fiéis Defuntos; a terceira seja celebrada segundo as intenções do Sumo Pontífice”. 

   A Santa Igreja dá ainda aos fiéis o privilégio de obter uma indulgência plenária em favor de uma alma do Purgatório, recitando neste dia — ou nos dias subsequentes, até 8 de novembro — um Pai Nosso e um Credo em alguma igreja ou oratório, ou visitando um cemitério para rezar nessa intenção.

Um “negócio” com as almas do Purgatório

   Esta piedosa prática nos permite fazer amizade com aqueles que, por causa de nossas preces, saem do Purgatório e são admitidos no Céu, onde adquirem um poder de audiência colossal junto a Deus. Decerto, a gratidão deles nos beneficiará. Se nesta Terra somos agradecidos aos nossos benfeitores, quanto mais as almas que entram na glória saberão interceder em favor de quem por elas rezou.

   Nesse sentido, bem cabe aqui a aplicação da parábola do administrador infiel (cf. Lc 16, 1-8). Este homem, ao perceber que perderia o emprego devido à má gestão nos negócios de seu senhor, travou amizade com todos os devedores deste a fim de ser sustentado por eles na hora da amargura e da necessidade, já que, por sua avançada idade, carecia de forças para trabalhar. E, uma vez despedido, foi ele amparado por todos aqueles de quem fraudulentamente aliviara a dívida. Nosso Senhor não elogia o roubo do administrador, mas louva, isto sim, sua esperteza.

   Hoje é, então, o dia da esperteza! Devemos pedir por todos os que se encontram no Purgatório, sobretudo os mais ligados a nós. Este ato de caridade nos renderá bons amigos, que retribuirão em qualidade e quantidade o favor recebido e, por conseguinte, muito nos ajudarão na hora da dificuldade.

Fontes consultadas:  DIAS, João S. Clá, O Inédito sobre os Evangelhos Vol VII, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano, 2013

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2º Domingo da Páscoa

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou…

   O Evangelho se abre com um episódio ocorrido no próprio dia da Ressurreição. Ao cair da tarde, ainda os encontramos reunidos no Cenáculo. Temerosos de que os judeus viessem à sua procura e os levassem paraa prisão, fecharam bem todas as portas do local. Não obstante, enquanto conversavam, “Jesus entrou”.

   Neste caso, o medo que se apoderou dos Apóstolos foi útil, e até providencial, para lhes oferecer uma prova irrefutável da Ressurreição de Jesus em Corpo glorioso, pois se a casa estivesse aberta eles imaginariam que o Mestre havia entrado pelas vias normais. De fato, esse ato de transpor barreiras físicas decorre de uma das propriedades dos corpos gloriosos, a sutileza, pela qual os Bem-aventurados são capazes de atravessar outros corpos sempre que o queiram.

…e, pondo-Se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”.

   Esta passagem traz um aviso, um conselho e um convite para nós: sempre que procuramos a companhia de Jesus — seja no Santíssimo Sacramento, seja numa cerimônia litúrgica, seja em qualquer circunstância em que elevemos nossa alma até Ele — devemos estar em paz, pois só assim nos beneficiaremos inteiramente de sua presença. Isto é, precisamos aquietar as paixões, eliminar os apegos e as aflições com as coisas concretas e colocarmo-nos em atitude contemplativa.

Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor.

   Compreende-se que São João faça constar o quanto os discípulos se alegraram com isso. Haviam-se dissipado todas as inquietações, graças à paz infundida por Jesus, sem a qual não teriam desfrutado o imenso dom que Ele lhes oferecia ao manifestar-Se.

   Vemos ainda acentuada a necessidade de nunca abandonarmos o espírito contemplativo — quer estejamos em meio às atividades, quer enfrentando um drama, quer nas ocasiões de júbilo —, bem como a importância de vigiarmos sempre para impedir que nossas más inclinações nos dominem, roubando-nos a paz. No temor, na dor ou na confusão, na euforia, no entusiasmo ou na consolação, nunca devemos perder a paz! Nisto consiste o estado de santidade.

Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio”.

   Com que objetivo o Pai enviou Jesus ao mundo? Para salvar os homens, revelando, ensinando, perdoando e santificando, e é esta a missão que o Redentor transfere aos Apóstolos reunidos em plenário, já no primeiro encontro posterior à sua Ressurreição. Tal é a função da Igreja, de modo particular dos que são chamados ao ministério sacerdotal, mas também de todo apóstolo: quanto lhes seja possível, têm obrigação de instruir nas verdades da Fé e encaminhar para o perdão, promovendo a santificação das almas pelo exemplo e pela palavra.

E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”.

   O Filho de Deus lhes conferia o poder de perdoar os pecados, deixando a seu encargo “o principado do supremo juízo, para que, fazendo as vezes de Deus, a uns retenham os pecados e os perdoem a outros”. De fato, sem a assistência do Espírito Santo não é possível exercer missão tão elevada, pois o confessor deve tratar cada alma tal como Jesus o faria, sabendo discernir as disposições do penitente, dar-lhe o conselho adequado e estimulá-lo ao sincero arrependimento de suas faltas.

Tomé, chamado Dídimo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaramlhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”.

   Tomé, ausente do Cenáculo quando Jesus ali estivera junto aos discípulos,não havia se beneficiado do convívio com o Senhor, e, ao ouvir a notícia, recalcitrou em não acreditar, declarando que só se convenceria se comprovasse por si mesmo a Ressurreição.

   Deus permitiu isso também para que os outros Apóstolos, já trabalhados por Nosso Senhor, tivessem um choque com atitudetão incrédula, e ficasse patente para eles a diferença entre quem ouvira duas vezes “A paz esteja convosco” e quem não fora objeto deste favor. Tomé vinha com a agitação da atividade, com as aflições de quem está alheio à contemplação e, em consequência, fraquejou na fé.

Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-Se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”.

  Apesar de todas as graças recebidas na ocasião anterior, os Apóstolos ficam mais uma vez amedrontados. E é compreensível, pois, se a aparição de um Anjo incute temor, como não causaria a de um Deus feito Homem, ostentando em seu Corpo marcas de glória? Por isso Nosso Senhor lhes deseja outra vez a paz. Pazsobrenatural que Ele próprio comunica à alma de cada um.

Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E nãosejas incrédulo, mas fiel”. Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!”

   Assim como fizera aos outros, Jesus apresentou as mãos a Tomé e afastou a túnica, de modo a mostrar a chaga do lado, para que o Apóstolo incrédulo também se tornasse testemunha da Ressurreição. O felix culpa! Ao tocar nas sagradas chagas, São Tomé deu-nos a prova de que era realmente o Corpo do Divino Mestre, curando “em nós as chagas de nossa incredulidade. De maneira que a incredulidade de Tomé foi mais proveitosa para nossa fé do que a fé dos discípulos que acreditaram, porque, decidindo aquele apalpar para crer, nossa alma se afirma na fé, descartando toda dúvida”

   Há ainda nesta passagem outro aspecto que merece nossaatenção: tudo isto aconteceu depois de São Tomé receber a paz de Nosso Senhor. Do contrário, embora ele pusesse a mão na chaga de nada aproveitaria, porque é na paz que a fé, a esperança, a caridade — enfim, todas as virtudes — se desenvolvem.

Jesus lhe disse: “Acreditaste, por que Me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”

   Este versículo ressalta o contraste entre o caráter divino da Igreja e o seu elemento humano. Este último é incrédulo e, no fundo, infiel, pois é constituído de pessoas concebidas no pecado original e que, portanto, têm debilidades. Mas, enquanto instituição erigida por Cristo para santificar e salvar, ela é impecável, e nenhuma imperfeição humana atinge sua divindade.

Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que,crendo, tenhais a vida em seu nome.

   Impossível seria narrar tudo o que o Divino Mestre fez, pois a vida d’Ele foi um sinal permanente. Por esta razão, o Evangelista selecionou os episódios mais adequados à finalidade que tinha em vista, dentre os quais os dois encontros de Jesus com os discípulos, mencionados neste Evangelho. Com efeito, eles nos levam a concluir facilmente que Nosso Senhor Jesus Cristo é o Filho de Deus Vivo e que n’Ele devemos ver mais o lado divino do que o humano.

   Tenhamos sempre presente que, se não nos coube a graça de conviver com Nosso Senhor, nem ver e tocar suas divinas chagas, nos foi reservada, conforme a afirmação do Divino Mestre, uma bem-aventurança maior do que a deles: crer na Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Bem se poderiam aplicar a nós as palavras de São Pedro na segunda leitura (I Pd 1, 3-9) deste domingo: “Sem ter visto o Senhor, vós O amais. Sem O ver ainda, n’Ele acreditais. Isso será para vós fonte de alegria indizível e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação” (I Pd 1, 8-9)

Obra consultada: DIAS, João S. Clá, O Inédito sobre os Evangelhos Vol I, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano, 2013

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O Ato Penitencial

   Em todas as missas, logo no início, nos reconhecemos pecadores e pedimos perdão a Deus. Meditemos neste pedido que, quantas e quantas vezes fazemos maquinalmente em nosso ato penitencial!

   Senhor, tende piedade de nós! É o grito dos dez leprosos quando se encontram com o Salvador . Todos nós somos chagados pela lepra do pecado, somos estropiados e cegos… Mostremos então ao Mestre, já no início da missa, as nossas chagas. Façamos como os pobres mendigos que apresentam suas misérias à beira do caminho em dias de romaria… Senhor, tende piedade de nós!

   Mais ainda! Mostremos a Deus Pai as cinco chagas de Cristo, serão elas nossa bandeira de glória. Que tesouro são essas cinco chagas! Foram abertas por nosso amor, por amor de ti, meu irmão, quem quer que sejas. Elas valem muito mais que todos os tesouros do mundo. Santo Agostinho nos diz que elas foram abertas para que nós, pecadores, pudéssemos entrar e aí repousar dos trabalhos do nosso prolongado exílio. Essas chagas são um oásis neste deserto e uma luz nas trevas deste mundo.

   Jesus se fez hóstia por que nos ama. Hóstia tão grande que uniu a terra e o céu… e ao mesmo tempo, hóstia tão pequenina que cabe na mão do celebrante… e nós deixamos Ele só em seu calvário, e não queremos nos imolar com ele! Senhor, tende piedade de nós!

  Ficamos espantados quando os dois discípulos de Emaús, encontrando o Mestre pelo caminho não o tenham reconhecido. E nós? Quantas vezes desconhecemos ou até negamos ao Senhor em certas contrariedades que diariamente nos aparecem? Senhor, tende piedade de nós!

   O Senhor uniu-se talvez misticamente às nossas almas, numa união comparável, mais muito superior à dos esposos. Ele nos chamou para si, nos atraiu até seu Divino Coração para que fossemos um com Ele. E nós andamos para outros caminhos, a procura de outras uniões, e prendemos o nosso coração a mil outras coisas! Cristo, tende piedade de nós!

   As vezes o sacerdote sente-se confundido ao subir ao altar! É que ele foi elevado à “mais alta dignidade da terra” e vive talvez bem perto das sombras da morte, ou quem sabe, talvez, dentro delas… E ao ver as suas sombras, ao ver que é todo sombra, não pode deixar de repetir como os dez leprosos: Cristo, tende piedade de nós!

   E tu, meu irmão, sentando em teu lugar na missa e que daqui a pouco estará diante do Cristo na Eucaristia e que és todo sombra também, não sentes o mesmo anseio de repetir este pedido? Cristo, tende piedade de nós!

   Sabes bem que todos nós somos membros do Corpo Místico de Cristo. Todos os homens são irmãos em Cristo. Ferir um dos nossos irmãos é ferir o próprio Cristo. Se a cada dia lembrássemos disso, quantas faltas de caridade poderiam ser evitadas?!

   Devemos rezar por todos, sem exceção. Ah! Se nós tivéssemos fé no valor da oração, mas uma fé verdadeira, viva, uma fé cega para todas as inconstâncias e vaidades deste e pronta para combater todas as desconfianças… Mas não. Somos homens de pouca fé. Reconheçamos isso para pedir ao Senhor que aumente nossa fé. Depois digamos, Senhor, tende piedade de nós!

   Meu irmão, dos dez leprosos curados, apenas um apareceu para agradecer! Pois bem, os outros nove, somos nós, somos os ingratos! Deus nos concede um alma em graça, vida pura, nos faz templos do Espirito Santo, mas trazemos esse tesouro em vasos  de barro, frágeis.

Que o reconhecimento de tantos dons e o temor de perder tudo nos faça pedir todos os dias, Senhor, tende piedade de nós.

   A humilde confissão da nossa insuficiência, das nossas faltas, glorifica imensamente a Deus, exalta a sua Onipotência, a sua Santidade. Reconhecer a própria baixeza e subir. Os joelhos que se curvam para a terra fazem com que Deus desça do céu. Digamos pois com o sacerdote: Senhor, tende piedade de nós!

CONVITE

Obra consultada:

A Missa e a Vida Interior, Artigos publicados na “Opus Dei” por D. Bernardo de Vasconcelos”, Edição da Opus Dei, Braga, 1936.

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Perdão, uma palavra tão cara a Deus

I – Suportai-vos uns aos outros

   Nas crônicas da Ordem cisterciense conta-se a história de um monge que quando aproximava-se da mesa da comunhão Deus lhe concedia tantas graças e benefícios que ao comungar tinha a impressão de está recebendo na boca um favo de mel, e aquela suave doçura permanecia por três dias inteiros.

   Aconteceu que um dia este monge tratou um de seus irmãos com aspereza e indo comunga sentiu durante todo aquele dia a boca amarga como fel. Por quê? Porque não cumpriu o que manda Cristo: “Quando estiveres levando a tua oferenda ao altar e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão. Só então, vai apresentar a tua oferenda”(Mt 5,23-24).

   Devemos ser flexíveis para saber perdoar e pedir perdão, quem nos diz isso é São Paulo: “suportai-vos uns aos outros e, se um tiver motivo de queixa contra o outro, perdoai-vos mutuamente. Como o Senhor vos perdoou, fazei assim também vós” (Cl 3,13).

II – Uma resposta branda

   Uma bala de canhão quando atinge uma torre de guarda produz um grande barulho e destrói toda a construção. Ao contrário, quando a mesma bala atinge um monte de lã, este amortece com brandura o impacto e a bala perde a sua força.

   Quando uma coisa dura se encontra com outra também dura soa e faz estrondo, ao contrário, se o duro encontra a brandura, nem se ouve, nem se sente. Assim diz Salomão: “uma resposta calma aplaca a ira, a palavra dura atiça o furor” (Pr 15,1). É importante não aumentar o calor com respostas duras, antes, deve haver tanta brandura e virtude em nós, que ainda que alguma vez nos seja dirigida alguma palavra dura e áspera, não faça estrondo nem se sinta, nem se chegue a conhecer, mas ai mesmo se esconda e se apague.

III – Para ver a Deus é necessário perdoar

   Tomás de Kempis (autor de “Imitação de Cristo”) narrava um fato curioso.

   Havia em seu convento um sacerdote muito virtuoso que tendo de ir a outro convento encontrou-se com um homem no caminho. Este, muito católico, seguiu viagem ao lado do religioso conversando sobre as coisas da religião.

   O homem então disse ao sacerdote que uma coisa estranha vinha acontecendo.  Toda vez que ia a missa não conseguia ver o Santíssimo Sacramento nas mãos do sacerdote. Ele imaginou que isso acontecia devido à distância que estava, mas em outra missa, estando bem junto ao altar, igualmente não viu a sagrada espécie. E isso já se repetia a mais de um ano. pediu para ser atendido em confissão.

   O sacerdote o atendeu, e após examinar o caso, percebeu que o penitente estava em inimizade com alguém devido uma injúria que este lhe havia feito, e que ainda não havia perdoado.

  O confessor, depois de repreender o penitente por sua dureza de coração e malícia, mostrou-lhe o perigo que corria, uma vez que era impossível alcançar o perdão de seus pecados se – de todo coração – não perdoasse as injúrias que o amigo lhe fizera, e que aquilo era a causa de não conseguir ver o Santíssimo Sacramento.

   Totalmente arrependido, o cavalheiro seguiu o conselho do sacerdote, perdoou aquele que lhe tinha ofendido e acabada a confissão correu para a igreja e durante a missa pode ver sem dificuldade o Santíssimo Sacramento no momento da elevação. Inesquecíveis foram as graças daquela comunhão e ação de graças. Para ver a Deus é necessário perdoar!

IV – E o leitor deste artigo?

   Um pergunta. Será que não tenho que perdoar alguém?

   Outra pergunta. Será que em não devo pedir perdão por algo de errado que fiz?

   São Paulo nos dá um conselho no dia de hoje: “Não pequeis. Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento. Não vos exponhais ao diabo”. (Ef 4,26-27)

   Ao caro leitor… ainda temos algumas horas antes do por do sol!!!

Obra consultada: RODRIGUES, Pe. Afonso SJ, Exercícios de Perfeição e Virtudes Cristãs, Tip. Da União Gráfica, Lisboa, 1927)