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Conselhos e Lembranças – IV

 

 

Sobre a Morte

A morte ensina a não fazer caso de muitas coisas

Nossa querida Santinha longe de atemorizar-se com o pensamento da morte, procurava tirar lições úteis de que nos fazia aproveitar. Disse-nos um dia: “quando eu estiver morta – um cadáver – guardarei o silêncio, não darei conselho algum; se me puserem à direita ou à esquerda, não farei um movimento. Dirão: fica melhor deste lado, poderão até por fogo junto de mim, nada direi. Como esse pensamento nos ajuda a desapegar-nos das coisinhas que nos perturbam, de tudo o que não devemos fazer caso!”

Alegre serenidade perante a morte

Alegrava-se com a morte e seguia com prazer os preparativos que teriam desejado ocultar-lhe. Quis ver a caixa de lírios artificiais que acabara de chegar, destinados a ornar seu leito mortuário e disse com alegria: “É para mim!” Mal podia acreditar, tão grande era seu contentamento!

Num do últimos dias, à tarde, receando que não passasse a noite, preparavam no cômodo contíguo à enfermaria, uma vela benta, a caldeirinha e o hissope. Ela desconfiou do que se tratava e pediu que colocassem esses objetos à sua vista. Olhava-os de vez em quando com expressão de complacência e disse-nos amavelmente:

“Vede esse vela? Quando o ‘Ladrão’ (Mt 24, 43, Lc 12,39) me arrebatar, será colocada em minhas mãos. Mas não é preciso dar-me o castiçal. É muito feio!” Depois revelava-nos tudo o que se passaria após sua morte. Descrevia com satisfação todos os detalhes do sepultamento e, em termos tais, que nos fazia sorrir quando quereríamos chorar. Não éramos nós que a encorajávamos, e sim, ela que nos alentava!

Pouco lhe importa seu túmulo

Era indiferente a toda preocupação humana. Pouco antes de sua morte discutia-se diante dela a compra de um novo terreno no cemitério de Lisieux para nossas Irmãs falecidas. Disse-me graciosamente: “Pouco me importa o lugar; que seja aqui ou ali, que diferença há? Muitos missionários estão no estômago de antropófagos e os mártires tinham como cemitério os corpos dos animais ferozes.”

Últimos colóquios de Santa Teresa do Menino Jesus com Irmã Genoveva da Santa Face

Consignei as palavras que me foram dirigidas pessoalmente por Santa Teresa do Menino Jesus, durante os últimos meses de sua vida. Se houver alguma ligeira variante em relação aos textos recolhidos por Madre Inês de Jesus, não é para se admirar mais, do que das divergências dos Evangelistas, contando o mesmo fato.

3 de Julho – O leite fazia-lhe mal e como nessa ocasião, não pudesse tomar outro alimento, o Dr. de Cornière indicara uma espécie de leite condensado que se comprava na farmácia com o nome de “leite maternizado”. Por diversas razões, essa determinação a fez sofre e quando as garrafas chegaram, chorou copiosamente. À tarde, sentindo necessidade de sair de si mesma, disse-me com ar doce e tristonho:

“Tenho necessidade de um alimento para minha alma; lede-me uma Vida de Santo.”

– Quereis a de São Francisco de Assis? Distrair-vos-á, quando fala dos passarinhos.

Retornou gravemente: “Não é para distrair-me, mas para ver exemplos de humildade.”

Fonte: “Conselhos e Lembranças”, recolhidos por Irmã Genoveva da Santa Face, Irmã e Noviça de Santa Teresa do Menino Jesus, e traduzidos pelas carmelitas descalças do Mosteiro do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha – Cotia – São Paulo – 1955, pag 187-188, 190

 

 

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Conselhos e Lembranças – III

Sobre o trato com os irmãos

Tratar as almas com delicadeza

Durante sua doença, fez-se notar que a Irmã Santo Estanislau lhe dava sempre a roupa branca mais macia, escolhida com a mais delicada atenção, para aliviá-la um pouco. “Vede, disse-me, é preciso ter os mesmos cuidados para com as almas, muitas vezes não pensamos nisso e as ferimos. E por que? Porque então não as aliviar com a mesma caridade, a mesma delicadeza que os corpos? Pois algumas são doentes, muitas são fracas e todas sofrem. Que ternura deveríamos ter para com elas!”

Preparar a lamparina para o Menino Jesus.

Certa vez confiara-lhe um desgosto. Para encorajar-me, provando que ela não era insensível, contou-me que sendo segunda porteira, foi preciso, numa noite, preparar um lamparina para alguns parentes de uma das Irmãs que hospedaram-se na Portaria exterior do Carmelo. Era preciso procurar óleo, mecha, nada estava preparado. As Irmãs haviam se retirado às suas celas, as portas estavam trancadas.

“Foi para mim uma grande luta, confiou-me. Murmurei interiormente contra as pessoas e as circunstâncias, aborreci-me com as porteiras do exterior que me faziam trabalhar na hora do repouso, quando elas mesmas poderiam fazer este trabalho. Mas, de repente, fez-se luz em minha alma. Imaginei-me a serviço da Sagrada Família, em Nazaré, preparando esta lampadazinha para o Menino Jesus, e então, pus nisso tanto, tanto amor, que caminhei lepidamente, o coração transbordante de ternura. Desde então, acrescentou, empreguei sempre este meio que me ajudou maravilhosamente”.

Cuidado das doentes – Paciência e renúncia

Na enfermaria, onde trabalhei desde minha entrada no Carmelo, não havia ninguém gravemente doente, mas religiosas de saúde deficiente. Entre elas havia uma, atacada de anemia cerebral crônica, cheia de manias, que tornava o ofício de enfermeira um contínuo exercício de paciência. Esta doente tinha por princípio: “é preciso provar de propósito as noviças”. Por conseguinte, acontecia-me estar na outra extremidade do mosteiro e ser chamada pelo sino para lhe ouvir dizer: “Minha irmãzinha, distingo seu andar do de sua companheira.”

Uma vez, não podendo mais, cheguei banhada em lágrimas, junto a Irmã Teresa que me acolhei com ternura, consolou-me, encorajou-me. Vejo-a ainda sentada perto de mim, sobre um baú, apertar-me em seus braços. Contudo, era preciso voltar sempre a meu campo de batalha e muitas vezes me surpreendi a dar uma grande volta, para não passar sob a janela da enfermaria, porque, vendo-me nas proximidades, a Madre fazia-me sinal para prestar-lhe algum serviço supérfluo. Por vezes passava rapidamente, abaixando a cabeça para não ser vista e guardando no coração uma certa amargura.

Irmã Teresa do Menino Jesus que conhecia a situação e no fundo, desculpava-me de todo coração, disse-me numa dessas circunstâncias: “Deveríeis passar de propósito diante da enfermaria, afim de ser molestada e, quando tiverdes as mãos ocupadas e não puderdes parar, respondei com amabilidade e com ar alegre, como se vos prestassem um serviço, prometendo voltar”.

“O sino da enfermaria deveria ser para vós uma melodia celeste. Quanto mais vos chamam tanto melhor; deveríeis deseja-lo… Oh! vede, ter belos e santos pensamentos, escrever livros, biografias de santos não valem um ato de amor de Deus nem a ação de atender ao sino da enfermaria, que tanto vos atrapalha. Quando vos pedirem um serviço ou quando preencherdes vosso ofício junto às enfermas que não são agradáveis, é preciso considerar-vos como uma escravazinha em quem toda gente tem direito de mandar e que não pensa em queixar-se, pois é escrava.”

– Sim, mas muitas vezes, bem o sabeis, ocupam-me por bobagens e é então que me ferve o sangue!

– Compreendo bem quando isso vos custa, mas se vísseis os Anjos que vos olham na arena! Esperam o fim da luta para atirar-vos coras e flores, como se fazia outrora aos valentes cavaleiros. Visto que queremos ser pequenas mártires, compete-nos ganhar a palma! e não penseis que nossos combates sejam sem valor: “O homem paciente vale mais que o forte e o que domina sua alma vale mais do que aquele que conquista cidades (Prov.16, 32)”. Se eu devesse viver ainda, o ofício que mais me agradaria seria o de enfermeira.

Não o pediria, temendo que fosse presunção, mas se me dessem, acreditar-me-ia bem privilegiada. Oh! sim, como seria feliz, se me tivessem pedido. Talvez custasse à natureza, mas parece-me que agiria com muito amor pensando na palavra de Nosso Senhor: “Eu estava doente e vós me aliviastes”.

Recomendava-me com insistência que cuidasse das enfermas com amor, que não desempenhasse este ofício como outro qualquer, mas com todo cuidado e delicadeza, como se servisse ao próprio Deus. Todavia, após um dia de trabalhos penosos, parecia-me duro ir à noite, durante a hora de repouso, ou, após Matinas, levar algum alívio às Irmãs adoentadas. Queixava-me disso, e ela replicou:

“Agora sois vós que levais chicarazinhas à direita e à esquerda, mas um dia, no Céu, será Jesus “quem irá e virá para servir-vos” (Lc 12,37) 113-114

As peras feias

Passeando no jardim durante o recreio, mostrou-me uma árvore frutífera: “Olhai estas peras tão feias na aparência, são a imagem das Irmãs que vos desagradam. No outono, quando vos derem estas frutas , desembaraçadas dos corpos estranhos que as desfiguram vós as comereis com prazer, sem pensar que as desprezastes. Assim também, no último dia, vereis com admiração vossas Irmãs brilhando como grandes santas, livres de todas as suas imperfeições.

Fonte: “Conselhos e Lembranças”, recolhidos por Irmã Genoveva da Santa Face, Irmã e Noviça de Santa Teresa do Menino Jesus, e traduzidos pelas carmelitas descalças do mosteiro do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha – Cotia – São Paulo – 1955, pág 109-118

 

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Conselhos e Lembranças – II

Continuamos nossa “Semana Teresiana” onde – a cada dia – deixamos aos leitores um desses Conselhos e Lembranças que algumas noviças registraram de seu convívio com Santa Teresinha do Menino Jesus.

Sobre a Humildade

“É preciso, sobretudo, dizia-me, ser humilde de coração. Não o sereis enquanto não quiserdes sujeitar-vos a todo mundo. Se as coisas correm bem, estais de bom humor, mas assim que não concordam com vosso modo de pensar, vosso rosto reflete tristeza. Isto não é virtude. A virtude ‘é submeter-se humildemente a todos (Imitação de Cristo)’, é alegrar-se por ser censurada. No começo de vossos esforços, a contrariedade aparecerá no exterior e as criaturas vos julgarão, por isso, imperfeitas. Mas tanto melhor! Praticareis assim a humildade que consiste não em pensar e dizer que estais cheia de defeitos, mas em ficardes contente de que os outros o pensem e mesmo o digam.”

“Deveríamos nos alegrar muito quando o próximo nos deprecia algumas vezes, pois se ninguém tivesse esse trabalho, o que seria de nós? É o nosso lucrozinho…”

“Quero aceitar as observações quando são justas, dizia-lhe eu. Desde que errei, aceito-as, mas não posso suportar as repreensões se não tenho culpa.” – Quanto a mim (respondeu a santa), bem ao contrário, prefiro ser acusada injustamente porque então não tenho nada que me reprovar. Ofereço isso a Nosso Senhor com alegria, em seguida, humilho-me pensando que seria bem capaz de cometer a falta de que me acusam.”

‘“Parece-me – confessava ela simplesmente – que a humildade é a verdade. Eu não sei se sou humilde, mas sei que vejo a verdade em todas as coisas”

Nas instruções particulares que fazia a cada uma de suas noviças, falava sempre sobre a humildade. O essencial em sua formação era ensinar-nos a não nos afligirmos diante de nossa própria fraqueza, mas antes a gloriarmo-nos em nossas enfermidades! É tão doce sentir-se fraca e pequena!” dizia.

Numa circunstância em que a Irmã Teresa do Menino Jesus apontava todos os meus defeitos, fiquei triste e um pouco desorientada. “Eu que desejo tanto possuir a virtude, pensava, eis-me longe, quereria tanto ser mansa, paciente, humilde, caridosa, ah! nunca chegarei a isso!..” Entretanto à tarde, na oração, li que exprimindo Santa Gertrudes este mesmo desejo, Nosso Senhor lhe responderá: “Em todas as coisas e acima de tudo, tem boa vontade, esta única disposição dará a tua alma o brilho e o mérito especial de todas as virtudes. Quem tem boa vontade, desejo sincero de procurar minha glória, de me dar graças, de compadecer de meus sofrimentos, de amar-me e de servir-me tanto quanto todas as criaturas juntas, este receberá indubitavelmente recompensas dignas de minha liberalidade e seu desejo ser-lhe-á algumas vezes mais proveitoso  do que para outros, as boas obras”.

Muito contente com essa boa palavra, a meu favor, participei à minha querida Mestrazinha que triunfante acrescentou: “Lestes o que se conta na vida do Padre Surin? Ele fazia um exorcismo e os demônios disseram-lhe: “Não conseguimos nada, é só a este cão da BOA VONTADE que não podemos nunca resistir!” Pois bem! se não tendes virtudes, tendes um “cãozinho” que vos salvará de todos os perigos; consolai-vos, ele vos conduzirá ao Paraíso! Ah! qual é a alma que não deseja possuir virtudes! É a via comum! Mas como são pouco numerosas as que aceitam cair, serem fracas, as que estão contentes ao verem-se por terra e aí serem surpreendidas pelos outros!”

Fonte: “Conselhos e Lembranças”, recolhidos por Irmã Genoveva da Santa Face, Irmã e Noviça de Santa Teresa do Menino Jesus, e traduzidos pelas carmelitas descalças do mosteiro do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha – Cotia – São Paulo – 1955, pág 39-41

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Conselhos e Lembranças – I

A Irmã Genoveva da Santa Face (Celina, irmã de Santa Teresinha) – com o intuito de enriquecer ainda mais o processo de canonização da Santa de Lisieux recolheu inúmeros depoimentos de noviças que a conheceram. Este conjunto de narrativas, várias vezes, aparece em edições de “História de uma Alma” em forma de apêndice.

Iniciamos hoje uma “Semana Teresiana” onde – a cada dia – deixaremos ao leitor um desses “Conselhos e Lembranças”.

Sobre a Oração

Toda sua vida passou-a na pura fé. Não havia alma menos consolada na oração. Confiou-me que passava sete anos na aridez: seus retiros anuais, os retiros do mês eram-lhe um suplício. Entretanto, tê-la-iam julgado inundada de consolações espirituais, tão grande era a unção de suas palavras e de seus escritos, tão unida a Deus estava ela!

Apesar desse estado de secura, era ainda mais assídua à oração, “satisfeita de dar mais ao bom Deus por esse meio”. Não suportava que se roubasse um só instante a esse santo exercício e formava suas noviças nesse sentido. Um dia em que a Comunidade estava ocupada na lavagem de roupa, soou o sino para a oração e foi ainda preciso continuar o trabalho. Irmã Tereza que me observava trabalhando com ardor, perguntou: “Que estais fazendo? – Eu lavo, respondi. – Está bem, mas interiormente, deveis fazer oração, este tempo é do bom Deus, não temos direito de tomá-lo.”

A união de Irmã Teresa com Deus era simples e natural, bem como sua maneira de falar Dele. Perguntando-lhe se perdia as vezes a presença de Deus, respondeu-me simplesmente: “Oh! não, creio que nunca fiquei três minutos sem pensar em Deus.” Mostrei-me admirada por ser possível uma tal aplicação. “Pensa-se naturalmente em quem se ama”, replicou.

No princípio de sua vida religiosa, quando eu estava ainda no mundo, aconselhou-me a comprar a obra de Mons. Ségur sobre nossas “Grandezas” em Jesus. Contudo, se meditava suas “grandezas” em Jesus, era o conhecimento de sua “pequenez” que gostava sobretudo de aprofundar, a ponto de confessar “preferir as luzes sobre seu nada às luzes sobre a fé.”

Nessa época e mesmo mais tarde ela saboreava particularmente as obras de São João da Cruz. Quando juntei-me a ela no Mosteiro, fui testemunha de seu entusiasmo diante do gráfico de nosso Santo Pai, na “Subida do Monte Carmelo”; deteve-se e fez-me notar o parágrafo seguinte: “Aqui não há mais caminho, porque não há lei para o justo”. Então, emocionada, faltava-lhe a respiração ao traduzir sua felicidade. Esta palavra auxiliou-me muito a fazer-se independente nas explorações do puro amor taxadas por muitos de presunção. Excitou sua ousadia em procurar atingir uma via completamente nova, a da Infância espiritual, que deixa de ser uma via, tão reta e curta ela é, atingindo de um só jato o Coração de Deus. Creio que todas as suas orações visavam unicamente esta procura da “ciência do amor.”

Sobre a recitação do Ofício Divino

Sua atitude no coro, tão modesta e recolhida, edificava-me a ponto de lhe perguntar em que pensava durante a recitação do Ofício divino. Respondeu-me que “não tinha método fixo; imaginava-se muitas vezes sobre um rochedo diante da imensidão, e lá sozinha com Jesus, tendo a terra a seus pés, esquecia todas as criaturas e repetia-Lhe seu amor, com palavras que não compreendia, é verdade, mas que lhe bastava saber que isso dava prazer a Jesus”.

Gostava de ser hebdomadária (A religiosa designada cada semana para desempenhar na recitação coral do Ofício divino o papel do sacerdote oficiante), para dizer em voz alta a Oração como os sacerdotes na Missa.

Em seu leito de morte deu este testemunho: “Creio que não é possível ter maior desejo do que tive, de rezar bem o Ofício e de não cometer faltas em sua recitação”.

Fonte: “Conselhos e Lembranças”, recolhidos por Irmã Genoveva da Santa Face, Irmã e Noviça de Santa Teresa do Menino Jesus, e traduzidos pelas carmelitas descalças do Mosteiro do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha – Cotia – São Paulo – 1955, pg 90-91