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Conselhos e Lembranças – I

A Irmã Genoveva da Santa Face (Celina, irmã de Santa Teresinha) – com o intuito de enriquecer ainda mais o processo de canonização da Santa de Lisieux recolheu inúmeros depoimentos de noviças que a conheceram. Este conjunto de narrativas, várias vezes, aparece em edições de “História de uma Alma” em forma de apêndice.

Iniciamos hoje uma “Semana Teresiana” onde – a cada dia – deixaremos ao leitor um desses “Conselhos e Lembranças”.

Sobre a Oração

Toda sua vida passou-a na pura fé. Não havia alma menos consolada na oração. Confiou-me que passava sete anos na aridez: seus retiros anuais, os retiros do mês eram-lhe um suplício. Entretanto, tê-la-iam julgado inundada de consolações espirituais, tão grande era a unção de suas palavras e de seus escritos, tão unida a Deus estava ela!

Apesar desse estado de secura, era ainda mais assídua à oração, “satisfeita de dar mais ao bom Deus por esse meio”. Não suportava que se roubasse um só instante a esse santo exercício e formava suas noviças nesse sentido. Um dia em que a Comunidade estava ocupada na lavagem de roupa, soou o sino para a oração e foi ainda preciso continuar o trabalho. Irmã Tereza que me observava trabalhando com ardor, perguntou: “Que estais fazendo? – Eu lavo, respondi. – Está bem, mas interiormente, deveis fazer oração, este tempo é do bom Deus, não temos direito de tomá-lo.”

A união de Irmã Teresa com Deus era simples e natural, bem como sua maneira de falar Dele. Perguntando-lhe se perdia as vezes a presença de Deus, respondeu-me simplesmente: “Oh! não, creio que nunca fiquei três minutos sem pensar em Deus.” Mostrei-me admirada por ser possível uma tal aplicação. “Pensa-se naturalmente em quem se ama”, replicou.

No princípio de sua vida religiosa, quando eu estava ainda no mundo, aconselhou-me a comprar a obra de Mons. Ségur sobre nossas “Grandezas” em Jesus. Contudo, se meditava suas “grandezas” em Jesus, era o conhecimento de sua “pequenez” que gostava sobretudo de aprofundar, a ponto de confessar “preferir as luzes sobre seu nada às luzes sobre a fé.”

Nessa época e mesmo mais tarde ela saboreava particularmente as obras de São João da Cruz. Quando juntei-me a ela no Mosteiro, fui testemunha de seu entusiasmo diante do gráfico de nosso Santo Pai, na “Subida do Monte Carmelo”; deteve-se e fez-me notar o parágrafo seguinte: “Aqui não há mais caminho, porque não há lei para o justo”. Então, emocionada, faltava-lhe a respiração ao traduzir sua felicidade. Esta palavra auxiliou-me muito a fazer-se independente nas explorações do puro amor taxadas por muitos de presunção. Excitou sua ousadia em procurar atingir uma via completamente nova, a da Infância espiritual, que deixa de ser uma via, tão reta e curta ela é, atingindo de um só jato o Coração de Deus. Creio que todas as suas orações visavam unicamente esta procura da “ciência do amor.”

Sobre a recitação do Ofício Divino

Sua atitude no coro, tão modesta e recolhida, edificava-me a ponto de lhe perguntar em que pensava durante a recitação do Ofício divino. Respondeu-me que “não tinha método fixo; imaginava-se muitas vezes sobre um rochedo diante da imensidão, e lá sozinha com Jesus, tendo a terra a seus pés, esquecia todas as criaturas e repetia-Lhe seu amor, com palavras que não compreendia, é verdade, mas que lhe bastava saber que isso dava prazer a Jesus”.

Gostava de ser hebdomadária (A religiosa designada cada semana para desempenhar na recitação coral do Ofício divino o papel do sacerdote oficiante), para dizer em voz alta a Oração como os sacerdotes na Missa.

Em seu leito de morte deu este testemunho: “Creio que não é possível ter maior desejo do que tive, de rezar bem o Ofício e de não cometer faltas em sua recitação”.

Fonte: “Conselhos e Lembranças”, recolhidos por Irmã Genoveva da Santa Face, Irmã e Noviça de Santa Teresa do Menino Jesus, e traduzidos pelas carmelitas descalças do Mosteiro do Imaculado Coração de Maria e Santa Teresinha – Cotia – São Paulo – 1955, pg 90-91

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Santa Teresinha – Somente rosas?

SantaTeresinha

No  dia 1º de outubro, festa de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, a maior santa dos tempos modernos, segundo São Pio X.

A santa prometeu fazer cair do Céu sobre a terra uma chuva de rosas, vale dizer, graças abundantes para a santificação das almas.

S. Teresinha 010Esse símbolo ficou de tal modo ligado ao seu nome, que, no mais das vezes, quando dela se fala, pensa-se logo nas pétalas de suave perfume, esquecendo-se dos espinhos.

Com efeito, um pouco por toda parte, formou-se uma idéia unilateral sobre a santa de Lisieux: meiga, atraente, havendo mesmo quem julgasse ter sido a jovem e heróica carmelita uma criatura mimada, tanto na família quanto no convento.

Na iconografia sulpiciana e tantas vezes deformada que correu o mundo não se nota o menor traço do sofrimento. Sua vida teria sido um mar de rosas…

Pelo contrário, essa santa, que via despontar em si, com toda clareza, a vocação religiosa aos dois anos de idade, confessa no leito de morte que sofreu incrivelmente, desde sua mais tenra infância. E insistia: “Sofri muito nesta terra; será preciso fazê-lo saber às almas”.(Carnnet Jaune, 31.7.1913)

É precisamente sobre esse aspecto quase desconhecido de Santa Terezinha que pretendemos discorrer no artigo de hoje.

Servimo-nos de anotações extraídas do abalizado livro do Pe. Alberto Barrios, CMF, “Santa Teresita, modelo y mártir de la vida religiosa” (Editorial Coculsa, Madrid, 1964).

No Alto do Carmelo

Dada a limitação do espaço, cingir-nos-emos ao verdadeiro martírio que representou para a santa os nove anos e meio que passou no Carmelo, cujas portas lhe foram franqueadas após luta intensa, aos 15 anos de idade.S. Teresinha 003

Mal acaba de transpor a clausura, ouve a amarga censura do Superior, Pe. Delatroette, perante os familiares e toda a Comunidade: “Quisestes que esta menina entrasse, Vós, e não eu, sereis os responsáveis”.

Mais tarde ele se arrependerá, confessando com os olhos rasos de lágrimas: “Ah, verdadeiramente esta menina é um anjo!”.

A heróica Teresa não tinha nenhuma ilusão sobre o que a aguardava no claustro. Ela mesma escreveu: “Deus me concedeu a graça de não levar nenhuma ilusão ao Carmelo. Encontrei a vida religiosa tal qual a imaginava. Nenhum sacrifício me surpreendeu”.

No tempo da santa, o Mosteiro de Lisieux foi dirigido por uma freira geniosa, “psiquicamente desequilibrada”, Madre Maria de Gonzaga.

Essa religiosa tornou-se efetivamente o instrumento de Deus para a santificação da Irmã Teresa.

Uma das religiosas declarou no processo de canonização: “Vejo-me obrigada a dizer que durante os anos que Soror Teresa do Menino Jesus passou no Carmelo de Lisieux, teve que sofrer esta Comunidade agitações deploráveis.

Existiam oposições de partidos, lutas de caracteres, cuja origem era o temperamento fastidioso de Madre Maria de Gonzaga, que durante mais de 20 anos foi Priora, em diversas ocasiões”.

Os processos fazem referência a fatos assim qualificados: “cenas espantosas estalavam com um a tempestade, a propósito de nada, porém a inveja era sua origem”.

Nesse ambiente a santa demonstrou “toneladas de prudência”. “Deus prova de grande cautela para evitar quanto pudesse agravar a situação já difícil. Procurava conciliar as coisas, acalmar os espíritos turbados, para que voltasse a paz e as almas pudessem retomar sua vida interior, abalada com frequência”.

Soror Maria Madalena depôs: “Neste ambiente, tão pouco edificante, Soror Teresa do Menino Jesus não cometeu jamais a menor falta”.

Era tal sua união com Deus que vivia como se estivesse no mesmíssimo Céu! Todas as dificuldades eram uma ocasião de progredir na virtude.

Humilhações

É conhecido o episódio da teia de aranha. A noviça, após executar exemplarmente a limpeza, recebe da Superiora perante toda a Comunidade esta repreensão: “Bem se vê que o claustro foi varrido por uma menina de 15 anos! É uma calamidade. Vá tirar aquela teia de aranha e seja mais cuidadosa para o futuro!”.

S. Teresinha 002       “Durante seu postulantado, comenta Sóror Teresa de Santo Agostinho, foi tratada muito severamente pela Madre Priora. Nunca a vi rodeada de cuidados, nem de atenções. Esta maneira de comportar-se com a Serva de Deus não se modificou com os anos; mas a doçura e humildade com que aceitava as advertências, as repreensões, não se desmentiram nunca: ainda quando não eram merecidas”.

Um dia em que Madre Inês, irmã mais velha da santa revelou à Priora sua tristeza por ver a jovem irmã tão maltratada e sempre humilhada sem razão, Madre Gonzaga respondeu vivamente:

–“Aqui está o inconveniente de ter irmãs ( no convento)… Sóror Teresa é muito mais orgulhosa do que pensais; necessita ser constantemente humilhada”.

Mas o tratamento adverso não vinha apenas da Superiora. “Algumas religiosas – declarou Celina, a irmã carnal pouco mais velha que a santa – abusavam de sua heróica paciência.

Durante três anos, a santa cuidou com carinho maternal de uma religiosa – Soror San Rafael – “maníaca e sem inteligência, que faria impacientar a um anjo”.  Ao declínio mental se ajuntava a didropsia.

Seja por curta inteligência, seja por imaginar que Teresa não tinha sede, o fato é que todos os dias bebia sozinha a pequena jarra de cidra que colocavam para ela e para a santa, no refeitório. O mérito está em que Teresa jamais lhe disse uma palavra de advertência, privando-se de tomar a cidra que lhe correspondia.

Terrível Holocausto

Teresa repetiu mais de uma vez que não conheceu, em sua vida de carmelita, os consolos de Deus. Seus últimos dias foram particularmente marcados por terríveis sofrimentos físicos e morais.

Na Quaresma de 1897, a tuberculose revela-se em estágio desesperador. Todos os dias às 15 hora – “horário militar”, dirá a doente – uma forte febre a vai consumindo. As hemoptises tornam-se rotina, duas e até três num só dia.S. Teresinha 011

As crises de sufocação diurnas e noturnas são terríveis. A angústia a invade. Aspira éter, mas a opressão é tão forte que o remédio não produz efeito. Teresa sofre muitas séries de aplicações de pontas de fogo, mais de quinhentas numa só vez – “eu mesma as contei”, diz Celina. Ela chegou a ponto de não poder respirar sem dar pequenos gritos, de quando em quando.  Uma sede ardente a consome: “Quando eu bebo, é como se derramasse fogo sobre fogo”.

A tuberculose atinge outros órgãos, que começam a decompor-se pela gangrena, provocando sofrimentos lancinantes. Teresa já não suporta o menor barulho, mesmo o amarrotar de um papel ou palavras ditas em voz baixa. Uma fraqueza que não lhe permite sequer mexer as mãos, pesadelos aterradores, nervos à flor da pele – ela chega ao auge do seu calvário! Está tão magra que, em muitas partes, os ossos atravessam a pele e formam-se chagas dolorosíssimas. “Não desejeis conservá-las nesse estado, adverte o médico, é horrível o que ela sofre!”

“Nunca pensei que fosse possível sofrer tanto. Nunca! Nunca!” – exclama por sua vez a doente. Sua agonia foi longa e dolorosíssima: “Não encontro explicação para isto senão nos ardentes desejos que tive de salvar almas”, dizia a santa.

Sua morte foi grandiosa e impressionante na sua simplicidade. O êxtase transfigurou sua fisionomia.

“Ninguém imagine – advertia Teresa – que seguir nossa pequena via é levar uma vida de repouso, toda de doçura e de consolações. Ah! é bem o contrário! (…) Porque o amor não vive senão de sacrifícios, e quando alguém se entregou totalmente ao amor, deve estar para ser sacrificado sem nenhuma reserva”.

Eis o verdadeiro sentido da vida de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face.

Infelizmente, ele é desconhecido de muitos, que formaram uma visão distorcida da extraordinária religiosa de Lisieux; fixaram apenas o símbolo da chuva de rosas, esquecendo-se porém dos espinhos.

Fonte: Desconhecida

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