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12 Palavras ditas e retornadas – Parte 2

história

Parte 2

    O homem ficou tão satisfeito que abraçou o velho, dando graças a Deus e dizendo que aquilo era um milagre do Anjo da Guarda, sua devoção antiga.

 ‑ Como são as doze palavras ditas e retornadas? Qual é a primeira, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! A primeira palavra dita e retornada é a Santa Casa de Belém, onde nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, para nos remir e salvar.

 ‑ E as duas palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As duas palavras ditas e retornadas são as duas tábuas de Moisés, em que Nosso Senhor pôs seus divinos pés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

 ‑ E as três palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As três palavras ditas e retornadas são as três pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as duas tábuas de Moisés e a primeira é a Santa Casa de Belém.

 ‑ E as quatro palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?

‑ Custódio, sim, amigo não! As quatro palavras ditas e retornadas são os quatro evangelistas, que andaram com Nosso Senhor, as três são as pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as tábuas de Moisés e a primeira é a Santa Casa de Belém.

‑ E as cinco palavras, amigo Custódio?

‑ Custódio, sim, amigo não! As cinco palavras ditas e retornadas são as cinco chagas de Nosso Senhor.

‑ E as seis palavras, amigo Custódio?

‑ Custódio sim, amigo não! As seis palavras ditas e retornadas são as seis velas bentas que estão no altar‑mor de Jerusalém.

 ‑ E as sete palavras, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As sete palavras ditas e retornadas são os Sete Sacramentos.

 ‑ E as oito palavras, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As oito palavras ditas e retornadas são as oito bem‑aventuranças pregadas por Nosso Senhor Jesus Cristo.

 ‑ E as nove palavras, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As nove palavras são os nove meses que a Virgem Mãe trouxe Nosso Senhor.

 ‑ E as dez, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As dez palavras ditas e retornadas são os Mandamentos da Lei de Deus.

 ‑ E as onze palavras, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As onze palavras são as onze mil virgens.

 ‑ E as doze, amigo Custódio?

‑ Custódio, sim, amigo não! As doze palavras ditas e retornadas são os doze apóstolos, as onze as onze mil virgens, as dez os Mandamentos, as nove os meses de Nossa Senhora, as oito as bem‑aventuranças, as sete os Sacramentos, as seis as velas bentas, as cinco as chagas, as quatro os evangelistas, as três a Santíssima Trindade, as duas as tábuas de Moisés, a primeira a Santa Casa de Belém, onde nasceu quem nos salvou. Amém! Estas são as doze palavras ditas e retornadas…

 ‑ De joelhos te agradeço, amigo Custódio, essa esmola, a qual há de salvar‑me do demônio!

 ‑ Custódio, sim, e teu amigo. Sou o Anjo da Guarda que vos vem perdoar pelo arrependimento e pela penitência.

     E sumiu‑se. O homem, quando chegou o prazo para prestar contas ao diabo, disse as doze palavras ditas e retornadas, e o maldito rebentou como uma bola de fogo, espalhando cheiro de enxofre.

    O homem viveu santamente seus dias, e acabou na paz de Deus, salvando‑se graças ao seu Anjo da Guarda.

 

Maravilhas do conto popular

Fernando Correia da Silva

Editora Cultrix ‑ São Paulo

1ra, edição ‑ 1968

pp. 145 a 148

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12 Palavras ditas e retornadas – Parte 1

história

       Era uma vez um homem muito trabalhador mas infeliz em todo negócio em que se metia. Tinha ele devoção com o Anjo da Guarda, rezando todos os dias em sua intenção. Cada vez mais pobre, o homem perdeu a paciência e um dia gritou desesperado:

 ‑ Acuda‑me o diabo, que o Anjo da Guarda não me quer ajudar!

      Apareceu um sujeito alto, todo vestido de preto, barbudo e feio, com uma voz rouca e desagradável:

 ‑ Aqui estou! Aqui estou! Que é que queres de mim?

      O homem disse que queria ficar rico. O diabo indicou uma gruta onde havia um tesouro enterrado, e disse:

 ‑ Daqui a vinte anos voltarei para buscar‑te; se não disseres as doze palavras ditas e retornadas, serás meu para toda a eternidade.

       O homem começou a viver folgadamente, em festas e alegrias, cercado de “amigos”.

       O tempo foi passando, e uma noite ele lembrou‑se de que estava condenado às penas do inferno. Só se soubesse as doze palavras ditas e retornadas…

 ‑ Isso deve ser fácil ‑disse ele consigo‑ toda a gente deve saber.

    No ouro dia perguntou aos amigos, aos vizinhos e a todos os moradores da cidade e não havia quem soubesse o que vinha a ser o que ele lhes perguntava.

    O homem afligiu‑se muito, e cada vez mais o tempo passava e ninguém sabia o segredo das doze palavras ditas e retornadas. Largou ele a vida má que levava, fez penitência, e saiu pelo mundo, perguntando. Todos diziam:

 ‑ Não sei, nunca ouvi falar…

      O homem só faltava morrer com o pavor da idéia de ter de morrer e encontrar‑se com o diabo e ser carregado para o fogo eterno.

    Já correra muito tempo desde que deixara o folguedo dos ricos, vestindo com modéstia e dando esmolas, quando, uma tarde, ia por um bosque, ]a hora da “Ave Maria”. Ajoelhou‑se para rezar, e ao terminar viu um velho que se aproximava dele.

    Cumprimentou‑o, e foram andando juntos para a vila. O homem perguntou ao velho como ele se chamava.

    Chamo‑me Custódio, respondeu.

    O homem, então, para não deixar de perguntar, falou nas doze palavras ditas e retornadas.

 ‑Eu sei as doze palavras ditas e retornadas!

Continua no próximo post…