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A cruz serrada

02 de Setembro de 2013

           Aquela manhã começou fria, a neblina ainda não se dissipara, e no grande caminho já se erguiam as inúmeras cruzes. Todos precisavam fazer muito esforço para conduzi-las. Os mais entusiasmados encorajavam os desanimados convidando-os a levarem a cruz com alegria, pois ela é a chave que lhes abrirá as portas do maravilhoso reino que lhes foi prometido e sem ela não transporiam os obstáculos que apareceriam no decorrer de sua jornada. Uns ouviam com bastante atenção e se dispunham a levar corajosamente sua cruz. Outros faziam pouco caso e continuavam a se arrastar.

          Entre os que não se conformavam com a cruz, havia um que, exausto pelo calor do sol a pino e do longo trajeto percorrido naquela manhã, parou um pouco e se pôs a murmurar contra seu destino:

          – Por que tenho que carregar essa insuportável cruz! Que mal fiz eu para ter essa sorte!

           Pobre homem! Sua falta de confiança na Divina Providência lhe legara um triste fim. Então, teve uma ideia: conseguiu um serrote e serrou um pedaço da cruz.

           – Bom, pelo menos, agora está mais leve, disse ele. E prosseguiu seu caminho.

          Um belo pôr-do-sol alegrava aquela penosa tarde. Todos estavam cansados, mas a esperança do cumprimento da grande promessa concedia-lhes força e coragem.

          Em determinado momento a multidão se deparou com um grande abismo de altura colossal. E agora o que fazer!? O caminho estava interrompido, não poderiam mais conquistar o seu almejado objetivo. Puseram-se então rezar pedindo um auxílio vindo do alto. Um dos mais entusiasmados disse:

          – E se nós tentarmos colocar a cruz sobre o abismo, será que ela chega do outro lado?

          – Ótima ideia! Vamos tentar. – Respondeu outro.

          Fizeram o teste e deu certo! As cruzes tinham o tamanho ideal para apoiar-se nos dois lados do abismo e, assim, lhes serviam de ponte, por onde cada qual pôde passar tranquilamente para o outro lado.

          Quando todos já haviam passado e se distanciado daquele obstáculo, chegou o homem que tinha serrado a sua cruz. Quando estava longe do conjunto, ele tinha visto os seus companheiros usando suas cruzes de ponte e tentou fazer o mesmo, porém sua cruz serrada não tinha o tamanho suficiente para apoiá-la no outro lado e ele ficou à beira do caminho…

          E eu? É, eu mesmo que estou lendo este artigo agora. Como estou levando a minha cruz? Com coragem, tendo presente o convite de nosso Divino Salvador? “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome cada dia a sua e cruz siga-me.” (Lc 9,23) Ou já parti alguns pedaços dela… Mas, caso alguém tenha alguma dificuldade em carregar a sua cruz, nos juntemos à nossa Mãe Celeste e unidos a ela imploremos o auxílio daquele que disse “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e carregados de fardos, e eu vos darei descanso.” (Mt 11, 28)

Por Rodrigo Siqueira

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12 Palavras ditas e retornadas – Parte 2

história

Parte 2

    O homem ficou tão satisfeito que abraçou o velho, dando graças a Deus e dizendo que aquilo era um milagre do Anjo da Guarda, sua devoção antiga.

 ‑ Como são as doze palavras ditas e retornadas? Qual é a primeira, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! A primeira palavra dita e retornada é a Santa Casa de Belém, onde nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, para nos remir e salvar.

 ‑ E as duas palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As duas palavras ditas e retornadas são as duas tábuas de Moisés, em que Nosso Senhor pôs seus divinos pés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.

 ‑ E as três palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As três palavras ditas e retornadas são as três pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as duas tábuas de Moisés e a primeira é a Santa Casa de Belém.

 ‑ E as quatro palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?

‑ Custódio, sim, amigo não! As quatro palavras ditas e retornadas são os quatro evangelistas, que andaram com Nosso Senhor, as três são as pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as tábuas de Moisés e a primeira é a Santa Casa de Belém.

‑ E as cinco palavras, amigo Custódio?

‑ Custódio, sim, amigo não! As cinco palavras ditas e retornadas são as cinco chagas de Nosso Senhor.

‑ E as seis palavras, amigo Custódio?

‑ Custódio sim, amigo não! As seis palavras ditas e retornadas são as seis velas bentas que estão no altar‑mor de Jerusalém.

 ‑ E as sete palavras, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As sete palavras ditas e retornadas são os Sete Sacramentos.

 ‑ E as oito palavras, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As oito palavras ditas e retornadas são as oito bem‑aventuranças pregadas por Nosso Senhor Jesus Cristo.

 ‑ E as nove palavras, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As nove palavras são os nove meses que a Virgem Mãe trouxe Nosso Senhor.

 ‑ E as dez, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As dez palavras ditas e retornadas são os Mandamentos da Lei de Deus.

 ‑ E as onze palavras, amigo Custódio?

 ‑ Custódio, sim, amigo não! As onze palavras são as onze mil virgens.

 ‑ E as doze, amigo Custódio?

‑ Custódio, sim, amigo não! As doze palavras ditas e retornadas são os doze apóstolos, as onze as onze mil virgens, as dez os Mandamentos, as nove os meses de Nossa Senhora, as oito as bem‑aventuranças, as sete os Sacramentos, as seis as velas bentas, as cinco as chagas, as quatro os evangelistas, as três a Santíssima Trindade, as duas as tábuas de Moisés, a primeira a Santa Casa de Belém, onde nasceu quem nos salvou. Amém! Estas são as doze palavras ditas e retornadas…

 ‑ De joelhos te agradeço, amigo Custódio, essa esmola, a qual há de salvar‑me do demônio!

 ‑ Custódio, sim, e teu amigo. Sou o Anjo da Guarda que vos vem perdoar pelo arrependimento e pela penitência.

     E sumiu‑se. O homem, quando chegou o prazo para prestar contas ao diabo, disse as doze palavras ditas e retornadas, e o maldito rebentou como uma bola de fogo, espalhando cheiro de enxofre.

    O homem viveu santamente seus dias, e acabou na paz de Deus, salvando‑se graças ao seu Anjo da Guarda.

 

Maravilhas do conto popular

Fernando Correia da Silva

Editora Cultrix ‑ São Paulo

1ra, edição ‑ 1968

pp. 145 a 148

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12 Palavras ditas e retornadas – Parte 1

história

       Era uma vez um homem muito trabalhador mas infeliz em todo negócio em que se metia. Tinha ele devoção com o Anjo da Guarda, rezando todos os dias em sua intenção. Cada vez mais pobre, o homem perdeu a paciência e um dia gritou desesperado:

 ‑ Acuda‑me o diabo, que o Anjo da Guarda não me quer ajudar!

      Apareceu um sujeito alto, todo vestido de preto, barbudo e feio, com uma voz rouca e desagradável:

 ‑ Aqui estou! Aqui estou! Que é que queres de mim?

      O homem disse que queria ficar rico. O diabo indicou uma gruta onde havia um tesouro enterrado, e disse:

 ‑ Daqui a vinte anos voltarei para buscar‑te; se não disseres as doze palavras ditas e retornadas, serás meu para toda a eternidade.

       O homem começou a viver folgadamente, em festas e alegrias, cercado de “amigos”.

       O tempo foi passando, e uma noite ele lembrou‑se de que estava condenado às penas do inferno. Só se soubesse as doze palavras ditas e retornadas…

 ‑ Isso deve ser fácil ‑disse ele consigo‑ toda a gente deve saber.

    No ouro dia perguntou aos amigos, aos vizinhos e a todos os moradores da cidade e não havia quem soubesse o que vinha a ser o que ele lhes perguntava.

    O homem afligiu‑se muito, e cada vez mais o tempo passava e ninguém sabia o segredo das doze palavras ditas e retornadas. Largou ele a vida má que levava, fez penitência, e saiu pelo mundo, perguntando. Todos diziam:

 ‑ Não sei, nunca ouvi falar…

      O homem só faltava morrer com o pavor da idéia de ter de morrer e encontrar‑se com o diabo e ser carregado para o fogo eterno.

    Já correra muito tempo desde que deixara o folguedo dos ricos, vestindo com modéstia e dando esmolas, quando, uma tarde, ia por um bosque, ]a hora da “Ave Maria”. Ajoelhou‑se para rezar, e ao terminar viu um velho que se aproximava dele.

    Cumprimentou‑o, e foram andando juntos para a vila. O homem perguntou ao velho como ele se chamava.

    Chamo‑me Custódio, respondeu.

    O homem, então, para não deixar de perguntar, falou nas doze palavras ditas e retornadas.

 ‑Eu sei as doze palavras ditas e retornadas!

Continua no próximo post…

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O Olhar Triste da Freira

Wilhelm_Emmanuel_von_Ketteler_1865

           Wilhelm  Emmanuel (Guilherme Manuel) Von Ketteler nasceu em Münster, na Alemanha, no dia de Natal de 1811. A família,  profundamente  católica e pertencente à aristocracia local, mandou‑o estudar no Colégio de Brig, na Suíça, dirigido pelos Padres da Companhia de Jesus. Terminados os estudos superiores, formou‑se em Direito chegando a exercer cargo de Notário. Um pouco esquecido dos exemplos dos pais e dos conselhos dos mestres, entregou‑se à vida despreocupada dos jovens do seu tempo.

            Dançava certa noite alegremente num baile quando viu no ar, por cima de si, um rosto de freira a fixá‑lo com semblante de magoada tristeza. Um estremecimento íntimo sacudiu todo o seu ser. O olhar triste daquela figura penetrou‑o até ao mais íntimo da sua alma sem, nunca mais o poder esquecer. Quem seria a freira? Que lhe queria dizer?

            Impressionado  com  aquela  visão, interrompeu bruscamente a dança, daí em diante não tornou a pôr os pés num baile. Invadiu‑o um sincero aborrecimento pelo mundo e seus prazeres.  Para  que  procurá‑los  se  não conseguiam encher as ânsias de felicidade do seu coração?

            Arrependido dos seus extravios, voltou-se sinceramente para Deus e, de novo, a paz raiou na sua alma.

           Nem sabia bem porquê mas desde o dia em que aquela figura estranha lhe apareceu no baile, nunca mais o abandonava a idéia de se fazer sacerdote. Rapaz rico e inteligente, portador de um título de barão, a quem o mundo sorria com mil encantos, resolveu deixar os caminhos fáceis do gozo para se entregar todo a Deus na vida sacerdotal.

           Em 1844, aos 33 anos de idade, Jesus Cristo, por meio do seu Bispo, fê‑lo participante dos divinos poderes e continuador da sua obra de Redenção das alma. Era sacerdote!

           Pouco depois, começou a ser Pároco, primeiro de Hopten, depois de Berlim. A sua ação pastoral obteve resultados tão maravilhosos na restauração religiosa das suas freguesias, e em tantas conversões, que o Papa Pio IX o nomeou em 1850 Bispo de Mogúncia.

Nada detém o novo Prelado.

         Sonhou reformar radicalmente a sua Diocese e transformou o sonho em realidade. Fundou seminários, casas de retiro, chama os religiosos  e  religiosas,  expôs,  realizou congressos e pregou a verdade por palavra e por escrito.

         Todos estes trabalhos não o impediam de tratar santamente do bem das almas. Cooperou na conversão de muitos protestantes, entre os quais a célebre escritora Ida Hahn-Hahn, de quem foi até a morte diretor espiritual. Como bom pastor, percorria constantemente a Diocese.

         Por tão extraordinário zelo e grandes qualidades, os historiadores apontam Dom Guilherme Manuel Von Kétteler como um dos maiores bispos de todo o século XIX.

          Certa  manhã  celebrou  Missa  num convento de freiras. Ao colocar a Hóstia Santa na boca duma religiosa, ficou espantado. Aquela freira velhinha parecia‑lhe a mesma, que mais de 30 anos antes, tinha visto de olhar magoado no célebre baile onde começou a sua conversão.  A rapidez própria da distribuição da Sagrada Comunhão e a modéstia da Irmã, não lhe permitiram fixá-la bem.

          Para melhor se certificar, pediu, no fim da Missa, à Superiora que lhe apresentasse todas as religiosas, pois tinha especial interesse em as conhecer.

          Daí a poucos instantes tinha diante de si a comunidade inteira. Com olhar interrogador, foi percorrendo, uma a uma, todas as Irmãs. Queria descobrir aquela que tanto o tinha impressionado na distribuição da Sagrada Comunhão. Mas não apareceu. Teria sido ilusão?

‑ Estão aqui todas as religiosas?

– Sim, estão.

‑ Não falta nenhuma?

 – Só a irmã cozinheira. É tão aplicada ao trabalho que pediu para ser dispensada de todas as visitas.

‑ Desejava conhecer também essa religiosa ‑ concluiu sorrindo o Prelado.

          A boa feira, muito velhinha, comparece, confundida na sua humildade. Mal o Bispo a viu, estremece e conclui para consigo: “Sem sombra de dúvida é esta mesma a religiosa que eu vi no baile”. Levado pela curiosidade pergunta‑lhe:

‑ Que faz a Irmã?

‑ Trabalho na cozinha há mais de 40 anos, mas agora as forças são muito poucas, Senhor Bispo.

‑ E não se interessa pelas almas?

– Ai, Senhor Bispo, gostaria de poder rezar muito mais do que rezo, mas os afazeres não mo permitem. Em compensação, ofereço todos os meus trabalhos e sofrimentos a Deus, pela Santa Igreja, pela conversão dos pecadores, pelo Santo Padre e pelo nosso Bispo. Todas as noites, durante uma hora, rezo e sacrifico‑me pelos rapazes inteligentes que Nosso Senhor chama para o sacerdócio, mas que, por causa dos prazeres do mundo, não querem ouvir a Sua voz.

“Aqui está o segredo de tudo!”, pensou o prelado. E pousando sobre a freira velhinha o seu olhar comovido, disse‑lhe com paternal carinho:

‑ Continue assim, minha Irmã. Talvez muitos sacerdotes e até mesmo algum bispo lhe devam a Vocação.”

         Quando todas as religiosas se afastaram, contou à Superiora:

– A hora em que a vi é precisamente a mesma em que ela reza e se sacrifica todos os dias pelos rapazes com vocação sacerdotal, mas que pela sua leviandade fecham os ouvidos ao chamamento divino. A ela devo certamente ser hoje sacerdote e Bispo. Benditas sejam as almas que, no silêncio dos conventos, rezam e se sacrificam pelo aumento de vocações e pela santificação dos Sacerdotes.

          Dom Guilherme Manuel Von Kétteler, alma do movimento social na Alemanha; precursor dos documentos sociais da Igreja; audaz renovador da vida religiosa; corajoso defensor dos católicos na perseguição de Bismarck, faleceu com 66 anos de idade.

          A história da sua conversão é tal qual aqui fica exposta, como ele próprio a relatou.

 (Fonte: Revista Cruzada, Portugal)